Projeto que prevê verticalização do Centro de Belo Horizonte divide opiniões entre prefeitura e movimentos sociais, com debate sobre moradia, gentrificação e impactos urbanos
Proposta prevê Obelisco da Praça Sete, se destaca entre os prédios de Belo Horizonte, marcando o coração da capital mineira.
A possibilidade de transformar o perfil urbano do Centro de Belo Horizonte e de bairros tradicionais reacendeu um debate que vai além da arquitetura: trata-se de quem pode permanecer nesses territórios e como a cidade deve crescer. O Projeto de Lei (PL) 574/2025, já aprovado em primeiro turno na Câmara Municipal, propõe uma série de incentivos para estimular novas construções e a revitalização de imóveis ociosos, mas divide opiniões entre poder público, especialistas e sociedade civil.
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De um lado, a prefeitura defende que a medida amplia o acesso à moradia e recupera áreas degradadas. Por outro, críticos apontam falta de estudos técnicos, risco de aumento no custo de vida e possível expulsão de moradores de baixa renda.
A proposta da Prefeitura de Belo Horizonte se baseia na criação da chamada Operação Urbana Simplificada (OUS), com validade de 12 anos. O objetivo principal é incentivar a ocupação da região central por meio de políticas urbanísticas e fiscais.
Entre os principais mecanismos estão:
Segundo o Executivo, essas medidas podem diversificar a oferta imobiliária e aproximar moradia e trabalho, reduzindo deslocamentos diários e dinamizando a economia local.
Além disso, a prefeitura afirma que parte dos incentivos está direcionada à habitação de interesse social, com mecanismos de redistribuição de recursos para melhorias urbanas.
Apesar do discurso de revitalização, especialistas ouvidos pelo g1 destacam que o projeto pode gerar mudanças profundas na dinâmica urbana, e sem planejamento suficiente.
O urbanista Roberto Andrés, professor da UFMG (em entrevista ao g1), afirma que o aumento do potencial construtivo pode estimular uma verticalização intensa, semelhante à observada em bairros como o Belvedere. No entanto, ele alerta para a ausência de estudos de impacto.
Segundo Andrés, a proposta não apresenta análises sobre:
Além disso, ele chama atenção para a possibilidade de construção de prédios sem afastamento lateral, o que pode comprometer a qualidade ambiental das áreas afetadas.
Outro ponto central do debate é o impacto econômico sobre a população local. De acordo com especialistas e movimentos sociais ouvidos pelo g1, a valorização imobiliária pode tornar inviável a permanência de moradores antigos.
A dirigente do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia (MNLM), Edneia de Souza (em entrevista ao g1), afirma que o aumento dos preços de aluguel já é uma realidade em algumas áreas e pode se intensificar com o projeto.
Esse processo está associado à gentrificação, quando regiões passam por valorização urbana e acabam substituindo moradores de menor renda por grupos com maior poder aquisitivo.
Além disso, lideranças comunitárias alertam para o risco de descaracterização cultural, especialmente em bairros com forte presença histórica e religiosa.
No campo político, a vereadora Luiza Dulci (PT), também em entrevista ao g1, questiona a capacidade de bairros tradicionais absorverem o aumento populacional.
Segundo ela, regiões como Lagoinha, Floresta e Bonfim possuem:
Diante disso, o adensamento pode gerar sobrecarga em áreas como saúde, educação e saneamento.
A parlamentar também critica a concessão de benefícios fiscais ao setor imobiliário, argumentando que esses recursos poderiam ser direcionados para políticas públicas de habitação.
Por outro lado, há quem veja na proposta uma oportunidade de requalificar o centro da cidade. A arquiteta Laura Penna, presidente da Asbea-MG (em entrevista ao g1), defende que o projeto pode ajudar a devolver a função social a imóveis abandonados.
Segundo ela, edifícios ociosos representam um problema urbano, enquanto sua reocupação pode:
Ela também destaca que o retrofit pode preservar características arquitetônicas históricas, conciliando modernização e memória urbana.
Apesar das divergências, há consenso sobre a necessidade de ampliar o debate com a sociedade civil. Especialistas defendem que o projeto deve passar por revisões constantes e incorporar mecanismos de controle social.
Entre as propostas discutidas estão:
Enquanto isso, o projeto segue em tramitação na Câmara Municipal, onde ainda precisa passar por comissões e votação em segundo turno.
Mais do que uma mudança estética, o PL 574/2025 coloca em jogo diferentes visões de cidade. De um lado, a ideia de reocupar e modernizar o centro. De outro, o desafio de garantir que esse processo não aprofunde desigualdades.
Entre incentivos fiscais, novos empreendimentos e disputas políticas, o futuro do centro de Belo Horizonte permanece em aberto, e será definido não apenas por prédios mais altos, mas pelas decisões sobre quem poderá continuar habitando esses espaços.