Cultura

Alforriado Matias é homenageado em mural no centro de BH; saiba quem ele é

Homem que lutou contra a opressão onde hoje é a região do Barreiro ganha destaque em obra do artista Paulo Nazareth


Créditos da imagem: Reprodução / Redes Sociais
A obra, que pode ser vista da praça Raul Soares, foi realizada no Circuito Urbano de Arte (CURA) 2025 A obra, que pode ser vista da praça Raul Soares, foi realizada no Circuito Urbano de Arte (CURA) 2025

Mariana Cardoso Carvalho

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18/09/25 às 16:03 - Atualizado em 18/09/25 às 16:05
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No alto da lateral do Edifício Garagem, erguido no centro de Belo Horizonte, a inscrição “Alforriado Matias, bendito seja lembrado” celebra a vida de um homem que a historiografia oficial insiste em esquecer. Ele e seu machado estampam o novo mural do artista Paulo Nazareth, criado para a 8ª edição do Circuito Urbano de Arte (CURA).

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Na segunda metade do século XIX, onde hoje é a região do Barreiro, havia uma fazenda com o mesmo nome. Era lá que habitava Matias, um abolicionista que viveu como escravizado e que assassinou, em 1878, o Major Cândido Brochado, proprietário do lugar e líder conservador de destaque na política mineira.

O descumprimento da promessa de alforria feita por Brochado a Matias levou-o a se rebelar e matar o algoz. Segundo historiadores, o acontecimento não foi um ato isolado de vingança, mas sim insurgência coletiva. Afinal, para ter sucesso na emboscada, Matias se beneficiou, por exemplo, da rede de informações que era mantida por mulheres escravizadas.

Preso e levado para Ouro Preto, capital da província de Minas Gerais àquela época, o abolicionista logo foi encontrado morto em sua cela.

Arte como resgate histórico

O mural foi concebido pelo valadarense Paulo Nazareth para dialogar com a própria estrutura do prédio, cujos frisos remetem a pautas de uma folha de caderno. Sua ideia era transformar a fachada do Edifício Garagem em uma espécie de folha de rascunho; uma referência ao ensino de história e cultura afro-brasileiras e dos povos indígenas, que, embora seja previsto nas leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, respectivamente, ainda é aplicado de forma insuficiente nas escolas.

Foto: Carolina Faraco / Divulgação

Não é a primeira vez que Nazareth reposiciona a trajetória de Matias como exemplo de resistência. Ele já havia incluído o abolicionista em exposições como “Pedagogia”, na Faculdade de Educação da UFMG, ao lado de outras personalidades negras que se levantaram contra opressores.

Agora, o artista visual também apresenta em São Paulo a mostra “Nazarethana”, que encara como um desdobramento do tema abordado no CURA. Nela, Nazareth trata da história da própria família, marcada por apagamentos e pela violência psiquiátrica.

CURA

Idealizado por mulheres artistas, o Circuito Urbano de Arte realizou sua primeira edição em 2017 e já se transformou em um dos maiores festivais de arte pública do Brasil.

Mesas de debates, feiras, festas e ações que dialogam com a arte urbana e a cultura de rua são promovidos pelo projeto.

Confira aqui um mapa com a localização das artes concebidas pelo CURA e outras intervenções em Belo Horizonte.