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As três mulheres que estão transformando o horizonte de BH por meio do graffiti

Janaina Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni são os nomes por trás do CURA - Circuito Urbano de Arte



Créditos da imagem: Thiago Souza
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As idealizadoras do CURA Janaína Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni trazem consigo todo um repertório de modos de criar, modos de pensar e modos de conviver que consideram a escuta, o dissenso, a partilha, o ser coletivo
Redação Sou BH
14/10 às 08:47
Atualizado em 14/10 às 09:01

Quando um dos principais festivais de arte urbana do país, o CURA - Circuito Urbano de Arte, era somente uma ideia, havia o desejo de colocar Belo Horizonte no mapa mundial da arte pública. Da sua primeira edição, em 2017, para cá, a capital mineira conheceu o primeiro mirante de arte urbana do mundo, hoje com quase duas dezenas de empenas, pintadas por artistas — mulheres e homens — de diversas regiões do Brasil e do mundo, numa proposta que aproxima a arte e o público, que envolve toda a cena e expande fronteiras e supostas hierarquias entre o graffiti, o muralismo, a arte de letra e o grapixo.

O CURA é concebido e gestado por mulheres que, em cada edição, pelo menos uma estava grávida ou puérpera. Nesse encontro de forças e vivências que transformou BH visualmente, existe também a vontade de conceber uma ocupação do espaço público por meio da arte e da cultura que pense a cidade. O desafio é sempre grande, mas as idealizadoras Janaína Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni trazem consigo todo um repertório de modos de criar, modos de pensar e modos de conviver que consideram a escuta, o dissenso, a partilha, o ser coletivo. Por isso, o CURA não se encerra em 15 mil metros de pinturas; os territórios que ele cobre são muito maiores.


Foto: Caio Flávio/Área de Serviço

E também o CURA não é o mesmo desde o início, assim como suas idealizadoras, que ao longo de 5 edições viveram gestações e se tornaram mães, numa jornada dupla — pessoal e profissional — de transformação. Esse exercício de propor, aprender e amadurecer se reflete, por exemplo, na escolha por uma curadoria descentrada, que se aprofunda em um Brasil que não é somente urbano e sudestino. Apesar de na cidade, o CURA também dinamiza saberes não urbanos e não ocidentais, trazendo artistas com modos, tecnologias e formas de fazer e pensar diversos, inserindo na cidade vozes que apontam caminhos.

“Crescemos juntas, o CURA e nós três. E certamente o amadurecimento do CURA é um reflexo do nosso próprio amadurecimento enquanto mulheres que se transformam em mães no meio do caminho, mulheres que vivem, vêem e escutam o que está rolando em seu entorno. Aprendemos a como nos tornar aliadas aos movimentos artísticos antirracistas e a nos desconstruir em diversos âmbitos, buscando estratégias de descolonização das nossas mentes e atitudes. Vimos que o movimento é uma constante e sempre estaremos nesse processo de amadurecer”, explica Priscila Amoni. 

Por isso, não é ao acaso que as empenas mais altas da América Latina pintadas por mulheres sejam no CURA, assim como a maior obra de arte pública do mundo realizada por uma artista indígena e a maior coleção de murais feitos por mulheres do mundo. Essas obras trazem consigo saberes, técnicas, iconografias e repertórios que, ao mesmo tempo, acrescentam e problematizam circuitos artísticos hegemônicos. E, como imagens, elas se expandem, falam ao mundo, o significam e o transformam.

O CURA faz e se faz modificando seu entorno: desde o início, pensa e coloca em ação a paridade de gênero, seja entre os/as artistas participantes, seja entre a equipe. Nele, há condições de trabalho para mulheres com filhos, assim como uma estrutura feminina e feminista de produção que atua para mais gente ocupar espaços antes negados. O CURA é hoje o festival de maior impacto do Brasil porque é um agente vivo. Depois que terminam os dias de evento, ele continua e se amplia, integrado à cidade. O CURA alarga os espaços para caber mais gente.


Da esquerda para a direita: Janaína Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni. Foto: Thiago Souza

Sobre Janaína, Juliana e Priscila

Conhecer um pouco da história de vida das três mulheres é entender um pouco das raízes do festival e porque ele está hoje na vanguarda no país. Janaína Macruz traz do berço a política. Filha de militantes, cresceu na região do Araguaia, onde seu pai foi prefeito de uma pequena municipalidade. Apesar de formada em engenharia de produção pela UFMG, foi nos movimentos culturais e no ativismo onde se encontrou, sendo produtora cultural há mais de uma década. É uma das fundadoras do Circuito Urbano de Arte (CURA) e Pública Agência de Arte e mãe de Mano.



Já Juliana Flores começou no jornalismo, mas logo empreendeu na cultura. Fundou a editora Aletria com sua mãe e sócia Rosana Mont’Alverne (2009), trabalhando como coordenadora editorial e gestora de projetos literários. Em 2017 fundou a Pública Agência de Arte com Janaina Macruz, onde desenvolve outros projetos de arte pública. Paralelamente administra a carreira do pintor mineiro e seu marido Thiago Mazza. É mãe do José, da Rita e do Francisco, seu 1º filho, que já virou anjinho.


Priscila Amoni é a artista do trio e um dos principais nomes do muralismo de Minas Gerais, com murais em cidades do Brasil e do mundo, como Paris, Rio de Janeiro, São Paulo Começou a pintar telas em 2008, mas é em 2013 quando seu trabalho ganha um novo sentido, ocupando os espaços públicos e ganhando os grandes formatos. É também mãe do Evo. 

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