O Memorial Brumadinho reúne salas de memória e testemunho para preservar histórias, reconhecer o luto e enfrentar o esquecimento
Escultura “Cabeça que sente e chora” integra o percurso do Memorial Brumadinho e simboliza a dor, a memória e o testemunho das vítimas e de seus familiares
Às 12h28 de um dia 25 de janeiro, o tempo parou em Brumadinho. Sete anos depois do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, a data segue marcada não apenas pela ausência de 272 vidas interrompidas, mas também pela insistência das famílias em não permitir que o esquecimento se imponha sobre a dor. Nesse último domingo (25), o Memorial Brumadinho completou um ano aberto ao público, coincidindo com o sétimo aniversário da tragédia, e reafirmou seu papel como território de memória, justiça e defesa da vida.
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A cerimônia foi atravessada por sentimentos ambíguos. De um lado, o anúncio do encerramento das buscas do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, após 2.558 dias de trabalho, mais de 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos vistoriados e 268 corpos encontrados. Do outro, a certeza de que o fim da operação não representa um fechamento para as famílias, já que duas vítimas seguem desaparecidas e a justiça ainda não se materializou.
O trabalho dos bombeiros, considerado a maior operação de buscas da história do Brasil, chegou ao fim deixando números que dimensionam o esforço humano e técnico mobilizado desde 2019: mais de 5 mil militares envolvidos, 31 aeronaves, 68 cães, 120 máquinas e milhares de horas de voo. Apesar disso, os corpos do engenheiro mecânico Tiago Tadeu Mendes da Silva e da estagiária Nathália de Oliveira Porto Araújo nunca foram localizados.
Para as famílias, a interrupção das buscas não encerra o ciclo do luto. Pelo contrário: escancara a lacuna deixada pela ausência de responsabilização efetiva. “O que sentimos é a impunidade”, resumiu uma familiar durante a cobertura do caso ao longo dos anos. A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) ainda analisa segmentos humanos encontrados, reforçando que, mesmo com o fim das buscas em campo, o processo de identificação não foi concluído.
Erguido no próprio território atingido pela lama, o Memorial Brumadinho é um memorial in situ. Sua existência não partiu de uma iniciativa institucional espontânea, mas da mobilização persistente das famílias organizadas na Associação dos Familiares das Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem (Avabrum). A reivindicação era clara: um espaço independente, que não apagasse a violência do ocorrido nem transformasse a tragédia em paisagem neutra.
Idealizado por Kenya Lamounier, viúva de uma das vítimas, o Memorial foi concebido como lugar de acolhimento, salvaguarda dos segmentos corpóreos das vítimas e preservação da memória coletiva. A gestão é realizada pela Fundação Memorial de Brumadinho, criada em 2023 a partir de mediação do Ministério Público de Minas Gerais, com protagonismo assegurado aos familiares.
Ao completar um ano de funcionamento, o espaço já recebeu mais de 22 mil visitantes e se consolidou como polo educativo, cultural e de pesquisa. Escolas, universidades, pesquisadores, artistas e comitivas nacionais e internacionais passaram pelo local, que abriga também um Centro de Referência com acervos acadêmicos, audiovisuais, fotográficos e sonoros sobre a tragédia e seus desdobramentos.
Nada no Memorial Brumadinho é pensado para suavizar a dor. Desde a entrada, o visitante é confrontado por materiais, cores e formas que remetem à lama e à ruptura. A fenda que atravessa o complexo arquitetônico simboliza a fratura aberta no território e na história. No centro, a escultura-monumento conhecida como A Cabeça que Sente e Chora verte água continuamente, em um lamento permanente.
Na entrada do prédio principal, uma drusa de cristais representa as vítimas, as “joias” das famílias, em ressignificação direta a uma declaração pública que, à época do desastre, reduziu vidas humanas a ativos econômicos. Todo dia 25 de janeiro, a drusa é atravessada pela luz do sol, marcando o tempo e reafirmando a presença simbólica dos que se foram.
O bosque com 272 ipês amarelos, o espelho d’água que recria o céu da noite da tragédia com 272 estrelas submersas, as salas Memória e Testemunho e o mirante voltado para o vale atingido compõem um percurso que transforma o visitante em testemunha. Ali, lembrar não é um gesto passivo: é uma escolha ética.
A Sala Testemunho reúne diferentes camadas de memória da tragédia e do pós-rompimento. Além do espaço destinado à guarda dos segmentos corporais não identificáveis individualmente — autorizada pelas famílias após a segunda etapa de perícias destinados à guarda do Memorial em um procedimento inédito no âmbito da legislação brasileira, do IML e do Ministério Público — a sala abriga outros elementos centrais do processo de luto, justiça e reparação, como forma e interromper um luto que se reabria a cada nova tentativa de reconhecimento.
Os compartimentos de guarda são numerados e seguem identificação técnica sob responsabilidade exclusiva do Instituto Médico-Legal (IML). As famílias não têm acesso à correspondência individual desses números, uma medida que preserva a dignidade das vítimas e evita novas violações simbólicas. O Memorial reforça que não se trata de um cemitério, mas de um espaço de memória, reconhecimento e responsabilização do Estado.
A sala também apresenta registros documentais, relatos e materiais que evidenciam a repetição do luto vivido pelas famílias, obrigadas a enterrar seus entes queridos diversas vezes ao longo dos processos periciais. O ambiente convida à escuta e ao enfrentamento da tragédia a partir da perspectiva de quem foi diretamente afetado.
O Memorial faz questão de afirmar: não se trata de um cemitério. O espaço existe para a guarda digna, a preservação da memória e o compromisso público com a não-repetição. Trata-se de um gesto coletivo que transforma ausência em responsabilidade histórica, sem apagar a dor nem suavizar o crime.
A Sala Memória é dedicada à reconstrução das histórias de vida das 272 vítimas, deslocando o foco da morte para a existência, os afetos e os vínculos interrompidos pelo rompimento da barragem. O espaço apresenta fotografias, nomes, objetos simbólicos e registros que reafirmam a individualidade de cada pessoa, evitando que sejam reduzidas a números ou estatísticas.
Mais do que rememorar a tragédia, a Sala Memória atua como um gesto político de humanização. Ao apresentar trajetórias, cotidianos e sonhos, o Memorial reafirma que lembrar é também uma forma de exigir justiça, não repetição e responsabilidade. O ambiente estabelece um contraponto direto à lógica do esquecimento e à tentativa de normalização do desastre.
O ponto culminante da programação foi o “Concerto para a Memória – Uma Homenagem às 272 Joias de Brumadinho”, com Fernanda Takai acompanhada por 24 músicos da Orquestra Opus. Em arranjos inéditos, o repertório costurou canções nacionais e internacionais que atravessam gerações, transformando o espaço em um momento coletivo de escuta, respeito e afeto.
Para os familiares, encerrar a semana de atividades com música teve um sentido profundo. “A música tem o poder de nos abraçar”, disse uma das representantes da Avabrum durante a solenidade. Fernanda Takai, emocionada, destacou a honra de dar voz a uma homenagem que reafirma o Memorial como lugar de respeito à vida humana e à natureza.
Durante os discursos, uma palavra se repetiu: memória. Em um contexto em que se discute a renaturalização da área atingida e a criação de um parque no local por onde passou a lama, o temor das famílias é que o futuro seja construído à custa do apagamento do passado. O Memorial surge, então, como contraponto direto a essa possibilidade.
“Não vamos esquecer, porque lembrar é uma escolha ética, coletiva e permanente”, afirmou a diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho, Fabíola Moulin. Para ela, a memória é instrumento de transformação social, capaz de impedir que tragédias como essa se repitam ao naturalizar a barbárie.
Sete anos depois, Brumadinho segue vivendo na ausência: de corpos não encontrados, de justiça efetiva, de respostas à altura da violência sofrida. Mas é também na ausência que as famílias constroem presença, transformando luto em legado, dor em ação e memória em compromisso com a vida. O Memorial não fecha ciclos. Ele os mantém abertos, como alerta permanente de que nenhuma vida é descartável.