Teatro documental fala sobre despedida, solidão e tristeza na Funarte
Por Camila de Ávila, jornalista Sou BH
Em outubro de 2012, a atriz mineira
Cecilia Bizzotto, de 32 anos, foi assassinada num assalto em sua casa no bairro
Santa Lúcia, em Belo Horizonte. Além de um filho, a jovem atriz deixou também órfãos
amigos, como a também atriz Beatriz França. Agora, quase dois anos após sua
partida, será encenada a peça do gênero teatro documental com multilinguagens, “Talvez
eu me despeça”, que fica em cartaz na Funarte de 22 a 31 de agosto.
Segundo Beatriz, a peça não é um
protesto, e sim uma homenagem. “Confesso que nunca consegui ficar com raiva,
por isso a peça não se trata de um protesto. O sentimento que tive diante da
morte da Ciça (apelido de Cecília), foi e ainda é de impotência”, relata.
A peça tem texto de Beatriz França e
do dramaturgo Daniel Toledo que utilizam a técnica do teatro documental, que
consiste em colocar a experiência vivida pelo artista em cena. Beatriz se arrisca
no tablado a partir do momento em que se coloca verdadeiramente presente na
cena, no que se refere ao sentimento de perda, tristeza e solidão. “Queríamos
homenagear a Cecília, sendo assim, quem está no palco sou eu, Bião, a forma
como Ciça me chamava. Tento colocar a minha relação com ela no palco, de forma
honesta e sincera”, explica.
O objetivo da peça é tirar as pessoas
da zona de conforto. Por isso, Daniel Toledo colocou no texto a fragilidade dos
encontros que a vida proporciona por meio dos estudos do pensador grego Nikos
Kazantzakis (1883-1957), que fala sobre o nascer e morrer em cada instante.
“Podemos ter uma curta ligação com alguém e construir algo interessante. O
contrário também pode ocorrer. Os encontros são surpreendentes”, conta. O texto
fala sobre o último encontro de Bião com Ciça, numa pizzaria depois de a vítima
ter estado em cena. “Pode ser que neste encontro eu tenha me despedido. Pode
ser que não. Mantenho esse diálogo com público todo o tempo, deixando claro que
as coisas são efêmeras e frágeis”, afirma.
Há um momento em que a peça ganha um
tom político. Nesta hora a atriz relembra toda a ação que tirou a vida de Ciça.
“Faço uma reflexão do fato e de como foi esse assassinato para mim. Falo da
violência que ela sofreu, da questão da insegurança em que vivemos. Deixo claro
que a dor e o sofrimento não estão longe de nós, em Gaza. Convivemos com ela
aqui todo tempo”, constata Beatriz.
Na Funarte será montada uma instalação
na qual estão coisas de Cecília Bizzotto. Segundo Beatriz, isso foi feito com
todo cuidado para não expor a imagem da atriz. Ciça aparece na peça uma única
vez.
Beatriz espera que a peça seja para o
expectador uma chance de se despedir de suas perdas. A peça é um carinho feito
para Ciça. “Sou eu em cena me despedindo de Ciça e acredito que este espetáculo
vai mexer com expectador, pois ele terá a chance de refletir sobre suas perdas.
Meu maior desejo é que seja visto como um espetáculo de afeto. Foi feito para
Ciça.”
Os assassinos de Cecília Bizzotto
estão presos.