Celular e localização em tempo real ajudam no acompanhamento, mas diálogo, prevenção e parceria com a escola continuam essenciais para a segurança dos jovens
Alunos e professores participam de encontro no ginásio do Colégio Determinante, em BH, com orientações sobre segurança e prevenção no dia a dia
Para muitas famílias de Belo Horizonte, o trajeto entre casa e escola ganhou um novo componente nos últimos anos: o celular. Uma mensagem avisando que chegou, uma ligação ou a localização compartilhada em tempo real podem diminuir a ansiedade de quem acompanha os filhos à distância.
A tecnologia, porém, não funciona como um escudo. Ela pode ajudar na comunicação e na identificação de situações que exigem atenção, mas a proteção de crianças e adolescentes passa também pelo diálogo, pela confiança e pela construção gradual de autonomia.
Segundo a TIC Kids Online Brasil 2024, 93% dos brasileiros de 9 a 17 anos usam a internet — o equivalente a 24,5 milhões de pessoas — e 81% têm o próprio celular. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, a proporção chega a 93%.
O aparelho também virou ferramenta de acompanhamento familiar. Cerca de seis em cada dez responsáveis (61%) afirmam que sempre ou quase sempre verificam o celular para saber o que a criança ou o adolescente está fazendo ou com quem está falando. Entre crianças de 9 e 10 anos, o índice chega a 80%; dos 15 aos 17, cai para 40%.
A diferença acompanha um desafio conhecido por muitas famílias: como proteger sem impedir que os filhos desenvolvam independência?
A resposta muda conforme a idade e o contexto. O acompanhamento necessário para uma criança de 9 anos não é o mesmo de um adolescente de 17. Conforme os filhos crescem, entram na equação o diálogo, a orientação e a conquista progressiva de autonomia.
Isso vale também para ferramentas de geolocalização. Saber onde está o aparelho do filho pode trazer tranquilidade, mas não representa, por si só, uma garantia de segurança.
Quando o estudante está na escola, outra instituição passa a fazer parte dessa rede de proteção. Segurança no ambiente escolar envolve controle de entrada e saída, comunicação com responsáveis, orientação dos alunos, atenção ao entorno e preparação dos profissionais para situações inesperadas.
A discussão ganhou novos contornos com a Lei 15.100/2025, que restringe o uso de celulares por estudantes durante aulas, recreios e intervalos, com exceções para situações específicas, como fins pedagógicos, acessibilidade, saúde ou emergências.
Nesse cenário, canais formais de comunicação e protocolos adotados pela própria escola ganham importância.
Para Júnio Rodrigues dos Santos, diretor e professor de História do Colégio e Pré-Vestibular Determinante, em Belo Horizonte, a segurança começa pela proximidade entre escola, estudantes e responsáveis.
Além da gestão, ele mantém contato diário com alunos da 1ª e da 3ª série do Ensino Médio e das turmas de Pré-Vestibular/ENEM. Para o educador, o cuidado não acontece apenas dentro da sala da coordenação.
“Tenho uma posição meio de ponte: estou o tempo todo com os alunos em sala, mas também participo da coordenação e do dia a dia da gestão. Isso ajuda, porque a segurança e o cuidado com os meninos não são coisas que a gente trata só sentado numa mesa — elas acontecem no corredor, na recepção, na porta da escola, na conversa depois da aula”, explica.
Diretor e professor Júnio Rodrigues dos Santos durante aula no Colégio Determinante; para o educador, proximidade e diálogo também fazem parte da segurança dos estudantes – Determinante/Divulgação
Segundo Júnio, conhecer a rotina de cada estudante e manter contato próximo com os responsáveis ajuda a criar uma rede de proteção.
“Conhecer o aluno pelo nome, o pai, a mãe, saber quem busca, quem pode buscar. Não é uma relação burocrática, de preencher formulário. É uma relação de confiança.”
Na rotina do Determinante, a segurança envolve identificação dos estudantes pelo uniforme, controle de entrada e saída, acompanhamento da recepção e dos porteiros e orientações frequentes sobre os cuidados no entorno.
Localizado na Rua da Bahia, próximo à Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de BH, o colégio também chama a atenção dos estudantes para situações que fazem parte da rotina de quem circula por uma área movimentada da capital.
“A Rua da Bahia e a região da Praça da Liberdade têm muita circulação. Por isso, é importante estar atento ao uso do celular, ao acesso aos meios de transporte e ao trânsito. A segurança é um conjunto de pequenas atenções que acontecem o tempo todo”, afirma Júnio.
A instituição controla ainda atrasos e ausências e comunica os responsáveis em casos recorrentes. Para saídas antecipadas, a autorização da família é obrigatória. A comunicação ocorre principalmente por telefone e WhatsApp, por meio da recepção e da coordenação. O colégio também está implementando um sistema de catracas para reforçar o controle de acesso.
Embora reconheça a utilidade das ferramentas digitais, Júnio defende que elas ocupem um papel complementar.
“Tecnologia é meio, não é fim. Ela ajuda a comunicar, a registrar, a agilizar — mas não pode substituir o vínculo, e nem pode ser usada de um jeito que invada a intimidade do aluno. A segurança que a gente busca é a do cuidado, não a da vigilância.”
A orientação vale também para pais que desejam acompanhar mais de perto a rotina dos filhos. Para o diretor, é importante conhecer horários e canais de comunicação da escola, mas também estabelecer acordos com os próprios adolescentes.
“O acompanhamento que sufoca o aluno às vezes tem o efeito contrário”, alerta.
A ideia é que o estudante saiba reconhecer riscos, tomar decisões e entender com quem pode contar. “O que esperamos é a formação de um sujeito empático, cidadão e atento. Se isso acontece, ele entende e colabora nas nossas ações de segurança, se sente amparado, sabe sempre com quem contar e desenvolve sua autonomia.”
Para o médico e professor de Krav Maga Lucas Ismael, preparar crianças e adolescentes para situações de risco começa antes de qualquer reação física. O primeiro passo é desenvolver a percepção do ambiente.
“O primeiro passo para desenvolver a percepção de risco é criar consciência sobre a existência da violência e sobre a importância de cuidar da própria segurança. Só de conversar sobre prevenção, segurança e violência, já começamos a nos preparar”, afirma.
Isso significa observar o que acontece ao redor e reconhecer comportamentos que fogem do habitual. Uma movimentação inesperada, uma pessoa muito exaltada ou uma situação diferente da rotina não significam necessariamente perigo, mas podem indicar que é hora de aumentar a atenção.
Em uma cidade grande como Belo Horizonte, essa percepção também faz parte da conquista da independência. Lucas cita como exemplo adolescentes que já não querem ser deixados pelos pais exatamente na porta da escola.
A decisão, segundo ele, precisa considerar horário, movimento da rua e condições do entorno. Durante o dia, em uma via movimentada e com adultos conhecidos por perto, a situação é diferente de caminhar sozinho à noite por uma rua vazia.
Professor de Krav Maga Lucas Ismael e a coordenadora Camila durante encontro no Colégio Determinante sobre prevenção, segurança e desenvolvimento da autonomia dos estudantes – Determinante/Divulgação
Para Lucas, não existe uma idade exata a partir da qual uma criança ou adolescente está preparado para circular sozinho. A autonomia deve ser conquistada gradualmente, conforme a capacidade de lidar com diferentes situações.
“Risco sempre vai existir. O importante é fazer uma preparação gradual, expondo a criança aos poucos a situações com as quais ela seja capaz de lidar.”
Uma estratégia é começar em ambientes controlados. Os pais podem permitir, por exemplo, que a criança caminhe sozinha dentro de um supermercado enquanto observam à distância. Depois, conforme ela demonstra maturidade, novos níveis de independência podem ser incorporados.
“O segredo é essa evolução gradual, sempre tendo algum tipo de rede de segurança. No início, a observação é mais próxima. À medida que a criança se desenvolve, os pais podem se distanciar cada vez mais.”
O mesmo princípio vale para situações de ameaça. Nem sempre enfrentar é a melhor alternativa. Dependendo das circunstâncias, correr, procurar um lugar seguro ou pedir ajuda pode ser mais adequado.
A localização em tempo real pode integrar essa rede de segurança, desde que existam regras claras entre pais e filhos.
“Toda tecnologia e inovação são bem-vindas desde que sejam bem utilizadas. A localização em tempo real não é a solução para tudo. É apenas mais uma informação entre várias outras para reconhecer padrões e perceber se existe algo fugindo do normal”, explica Lucas.
Antes de instalar um aplicativo, ele recomenda conversar sobre a finalidade da ferramenta. Se o objetivo é segurança, esse limite precisa ser respeitado.
Usar o recurso para acompanhar cada movimento ou interferir na privacidade do adolescente pode comprometer justamente um dos elementos mais importantes para a proteção: a confiança.
Segundo Lucas, quando o jovem sabe que pode procurar os pais diante de um problema, contar onde está e pedir ajuda sem medo, existe uma rede de proteção mais sólida do que aquela baseada exclusivamente em monitoramento.
Falar sobre violência com crianças e adolescentes pode ser desconfortável, mas evitar completamente o assunto também traz riscos. Lucas defende que a conversa seja adequada à idade e avance conforme a capacidade de compreensão dos jovens.
A abordagem pode envolver situações como furtos, assaltos, assédio e violência sexual, mas sem discursos alarmistas. O objetivo é mostrar que riscos existem e, ao mesmo tempo, ensinar maneiras de reconhecê-los e buscar ajuda.
Para o professor, a escola também pode contribuir ao trabalhar habilidades como atenção e foco. Preparar não significa criar um ambiente de medo, mas oferecer ferramentas para que o estudante saiba agir diante de situações inesperadas.
Entre aplicativos de localização, mensagens e diferentes recursos de monitoramento, a tecnologia ampliou as possibilidades de acompanhamento. Mas a proteção de crianças e adolescentes continua dependendo de algo que nenhum aplicativo substitui: a construção de confiança entre estudantes, famílias e escola.
Em Belo Horizonte, o Colégio e Pré-Vestibular Determinante aposta nessa proximidade como parte da formação dos alunos. Além da preparação acadêmica, a instituição mantém procedimentos de controle, comunicação direta com as famílias e orientações sobre autonomia e segurança dentro e fora do ambiente escolar.
Para conhecer a proposta pedagógica, a estrutura e as turmas do Colégio e Pré-Vestibular Determinante, acesse o site da instituição e saiba mais.