Universidade aponta limitações do modelo atual; pais e estudantes criticam falta de transparência e impacto social da medida
Centro Pedagógico da UFMG
A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) decidiu encerrar o regime de ensino integral do Centro Pedagógico (CP) a partir de 2027, após deliberação do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe). A mudança prevê o retorno ao modelo de tempo parcial, organizado em turnos distintos, e a criação de uma comissão para conduzir a transição.
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Segundo a universidade, a decisão é resultado de um processo de avaliação iniciado em 2024, que identificou limitações acadêmicas, estruturais e orçamentárias no formato atual, implantado em 2011 como projeto piloto. Em nota oficial, a instituição afirma que a medida foi tomada após amplo debate interno e visa a construção de uma proposta pedagógica mais consistente e alinhada aos princípios de equidade e qualidade de ensino.
A decisão, no entanto, provocou reação de famílias de estudantes e membros da comunidade acadêmica. Pais relatam que a mudança impacta diretamente a rotina doméstica e profissional, especialmente para aqueles que dependem do período integral para conciliar trabalho e cuidados com os filhos.
O Centro Pedagógico da UFMG atende atualmente cerca de 405 alunos do ensino fundamental, incluindo aproximadamente 50 estudantes com deficiência, entre eles crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O ingresso na escola é feito por sorteio.
Familiares também criticam a condução do processo decisório, apontando falta de transparência e participação. De acordo com relatos, discussões sobre o fim do ensino integral teriam ocorrido inicialmente de forma pouco clara, com informações divulgadas de maneira gradual e sem acesso a documentos oficiais.
Além das famílias, estudantes universitários se mobilizaram contra a medida. Em parceria com o Diretório Central dos Estudantes (DCE), foi elaborado um relatório com dados socioeconômicos que indicam que 34% das famílias atendidas estão em situação de vulnerabilidade e dependem do modelo integral. Entre famílias de alunos com deficiência, o risco de impactos logísticos e financeiros seria significativamente maior.
O levantamento também aponta que a redução da carga horária pode afetar de forma desproporcional as mulheres: em mais da metade dos casos analisados, mães relatam possível prejuízo em suas trajetórias profissionais.
Outro ponto levantado pelos críticos é o papel do Centro Pedagógico na formação de futuros professores. A escola funciona como campo de estágio para cursos de licenciatura, sendo comparada por especialistas a um “hospital universitário” na área da educação, onde estudantes têm contato direto com a prática pedagógica.
A UFMG afirma que continuará dialogando com a comunidade escolar durante o processo de transição e que o novo projeto pedagógico será desenvolvido com participação institucional. A implementação do novo modelo está prevista para começar em 2027, com garantia de continuidade da trajetória dos alunos já matriculados.