A prática vai além da religião e tem raízes históricas profundas; descubra o significado por trás do costume de substituir a carne vermelha
Símbolos da Quaresma e da Paixão de Cristo remetem ao período de reflexão e penitência que antecede a Páscoa, conforme a tradição cristã.
Chega a Quaresma e, com ela, uma dúvida comum em muitas mesas: por que trocamos a carne vermelha pelo peixe neste período? O costume, que movimenta feiras e inspira cardápios especiais em restaurantes, tem raízes profundas que vão além de uma simples troca alimentar, unindo história, simbolismo e penitência.
A prática está diretamente ligada à tradição cristã da Quaresma, os 40 dias que antecedem a Páscoa. Este é um tempo de reflexão, oração e sacrifício, em memória ao período que Jesus Cristo passou no deserto. A abstinência de certos alimentos, especialmente a carne, tornou-se uma das formas mais populares de penitência durante essa época.
Onde comprar peixe fresco em BH para a Quaresma; veja o roteiro
Quaresma em BH: restaurantes apostam em peixes e frutos do mar para substituir carne vermelha
Mas, afinal, por que a carne vermelha? Historicamente, a carne de animais de sangue quente, como boi e porco, era associada a festas, banquetes e celebrações. Deixar de consumi-la seria, então, um ato de humildade e simplicidade, um sacrifício para se purificar espiritualmente. O jejum representava um desapego dos prazeres terrenos em busca de uma conexão maior com o sagrado.
Enquanto a carne vermelha era vista como “quente” e festiva, o peixe, um animal de sangue frio, era considerado um alimento mais modesto e simples. A escolha não foi por acaso.
O peixe carrega um forte simbolismo no cristianismo desde os primeiros séculos. A palavra peixe em grego, “Ichthys”, era usada como um acrônimo para “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”.
Os primeiros cristãos, muitas vezes perseguidos, usavam o desenho de um peixe como um código secreto para se identificarem. Além disso, o animal está presente em passagens bíblicas importantes, como o milagre da multiplicação dos pães e peixes, reforçando sua imagem como alimento da providência e da partilha.
Hoje, o costume de comer peixe na Quaresma ultrapassou as barreiras da religião. Muitas pessoas sem vínculo religioso adotam a prática por tradição familiar, por questões culturais ou simplesmente como uma oportunidade para variar o cardápio e experimentar novas receitas.
A orientação da Igreja Católica recomenda a abstinência de carne vermelha na Quarta-feira de Cinzas e em todas as sextas-feiras da Quaresma. A prática se torna mais rigorosa e amplamente seguida na Sexta-feira da Paixão, quando o consumo de peixe se consolida como o prato principal em muitos lares.