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Em novo espetáculo, Grupo Galpão encena sonhos da pandemia

Local não informado

Em novo espetáculo, Grupo Galpão encena sonhos da pandemia

Evento encerrado
  • Gratuito

Data

21/08 até 12/09

Sab, Dom | 22:00


Créditos da imagem: Alexandre Resende
Com direção e dramaturgia de Pedro Brício, “Sonhos de uma noite com o Galpão” nasce a partir da coleta das experiências de mais de 150 pessoas
Com direção e dramaturgia de Pedro Brício, “Sonhos de uma noite com o Galpão” nasce a partir da coleta das experiências de mais de 150 pessoas

Em junho de 2021, o Grupo Galpão e o dramaturgo Pedro Brício iniciaram a pesquisa para um novo projeto. Com os teatros fechados e a pandemia ainda fora de controle, nasceria a ideia do espetáculo, a ser apresentado na internet, com ênfase na natureza do ato de sonhar em período tão atípico. Os artistas, então, receberam relatos de mais de 150 pessoas, com o desejo de coletar sonhos e realizar uma série de indagações: “O que temos sonhado?”, “Como os sonhos revelam os traumas da pandemia?”, “Estamos sonhando coletivamente?”, “Como sonharemos o futuro?”, “Transformar um sonho em cena pode ampliar a experiência do sonhador?”. As respostas a tais perguntas foram transmutadas no espetáculo “Sonhos de uma noite com o Galpão”, cuja estreia será no dia 21 de agosto, ao vivo, por meio do aplicativo Zoom. Ingressos gratuitos podem ser retirados pela Sympla. O espetáculo estará em cartaz de 21 de agosto a 12 de setembro, às 20h, sempre aos sábados e domingos.

No elenco da peça, estão os atores Antonio Edson e Eduardo Moreira e as atrizes Inês Peixoto, Lydia del Picchia, Simone Ordones e Teuda Bara. De todos os relatos coletados, alguns foram escolhidos para serem desenvolvidos em cena. Os sonhos selecionados foram compartilhados por Adyr Assumpção, Amanda Palma, Beatriz Radicchi, Benjamin Brício, Bruna Mitrano, Cássia Lima, Clarissa Tomasi, Elisa Aldunate Werdet e Ignacio Aldunate, Evandro Costa, Fernando Chagas, Gil Milagres, Gil Amancio e Dani Adil, Inês Peixoto, João Santos, Juliana Martins, Kayete, Kdu dos Anjos, Letícia Castilho, Lica Del Picchia, Marina Pêgo, Nil César, Pedro Brício, Raquel Carneiro, Raysner de Paula, Sávio Leite, Suely Machado, Tadeu Fernandes, Tati Mateus, Théda Mara, Titina Medeiros, Valéria Alvim, Vanessa Machado e Vera Casanova.

Na visão do dramaturgo e diretor Pedro Brício, o espetáculo há de gerar grande curiosidade nos espectadores, devido à dramaturgia e à reunião de sonhos reais – e bastante atuais. “Conversamos com muitas pessoas, e reunimos um apanhado sobre o que elas sonharam durante a pandemia: que tipos de traumas e desejos os sonhos têm revelado? Pudemos constatar que eles são muito variados, apesar de haver repetições. É muito bonito perceber como nosso inconsciente se articula neste momento”, comenta, ao explicar que, na peça, alguns sonhos foram encenados, enquanto outros, apenas contados: “Aí, entra toda a criatividade do Grupo Galpão, além da poesia e do humor, já que, também, há sonhos engraçados. Aliás, o sonho, em si, já é uma criação. O que fazemos é recriá-lo, a partir do teatro”.

A parceria com o Galpão, segundo o diretor, foi a oportunidade de aproximar princípios artísticos semelhantes. “Fiquei superfeliz com o convite! Acompanho o trabalho do Grupo há muitos anos, e sei do gosto por trabalhar com diretores e autores variados. Isso tem muito a ver com meu estilo, pois também tenho o hábito de escrever para outros diretores e companhias”, diz, ao lembrar do humor como outra característica em comum, já que está muito presente no trabalho de ambos. “Além disso, buscamos comunicação com o público. Falo de uma dramaturgia que pretende, ao mesmo tempo, ser acessível e popular, no melhor sentido dos termos, e caracterizada pelo experimentalismo”, completa.

Brício ressalta, ainda, que o Galpão sempre trabalha com processos abertos. Por isso, ele não se dedicou à dramaturgia com antecedência. “Quis escrevê-la durante os ensaios, o que nos gerou muito prazer. Também foi importante a busca pela inclusão do público no texto do espetáculo, e a possibilidade de ter contato com as pessoas que mandaram sonhos. Há, aí, o desejo de fazer um trabalho ligado a elas, de forma mais direta”, afirma. O espetáculo também foi todo pensado para a internet, linguagem – no ver do diretor – bastante diferente, devido às especificidades de interpretação, ritmo etc. “É o que a gente tem agora. Acho importante, tanto para nós, artistas, quanto para o público, mantermos essa comunicação. Por isso, ao invés de gravar, escolhemos fazer as partes presenciais ao vivo, durante toda a temporada do espetáculo”, conta.

Desse modo, é possível manter a rotina do ator em estar “no palco”, ao vivo, com os mesmos “perigos” inatos ao teatro. “Você sabe que pode dar errado, algo que tem a ver com o teatro, e, por isso, fizemos questão de manter”, explica o diretor, ao opinar que, passada a pandemia, as possibilidades do online permanecerão, de alguma forma, em certas experiências: “Tudo isso, afinal, fez com que atores e dramaturgos criássemos formas novas e híbridas. É a experiência audiovisual performativa. O mundo está mudando, e as novidades podem ser muito bem-vindas. A gente deve sempre pesquisar outras maneiras de comunicação com o público”.

Em “Sonhos de uma noite com o Galpão”, uma parte do espetáculo foi filmada. Trata-se do encontro, nos palcos reais do teatro, entre os sonhadores e os atores da peça. Cada ator convidou duas pessoas, que mandaram relatos de seus sonhos, para um encontro, que aconteceu e foi gravado no Galpão Cine Horto. “Foi muito rico estar em contato com essas pessoas, que têm refletido muito sobre os sonhos, como forma de dividir experiências. É, ainda, uma maneira de autoconhecimento e de conhecimento da sociedade. Agora, todos poderão ver, ouvir e compartilhar sonhos, encenados ou relatados”, completa Pedro Brício.

Para Simone Ordones, atriz do Grupo Galpão, o projeto do espetáculo nasce, justamente, da indagação proposta por Brício acerca do que as pessoas andavam sonhando. “Ele nos pediu a coleta de sonhos, para que pudessem ser usados na formação de um retrato teatral. A gente sabia que os modos de sonhar tinham sido afetados, devido às incertezas da pandemia, que rompeu com o que as pessoas faziam”, conta, ao lembrar que, de repente, tudo parou, de modo a também gerar dúvidas em relação ao futuro: “Até quando ficaremos isolados? Quando e como será o retorno disso? Como recomeçar? Os sonhos têm muito a ver com os desejos e os medos das pessoas. Por isso, achamos o projeto muito pertinente”.

Afinal, desde sempre, o homem sonha: “As antigas civilizações sempre valorizaram os sonhos, que, logo pela manhã, eram relatados pelas pessoas a suas famílias e seus vizinhos – o que era tão importante para a reflexão do narrador quanto para as pessoas que ouviam o relato”, afirma a atriz, ao explicar que a história era “transmitida” como um filme, de modo a também ativar a imaginação de quem a ouvia. “Para os povos ameríndios, segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, os sonhos reverberam a memória do passado, para gerar possíveis simulações do futuro, mesmo que seja de matéria probabilística. Aquilo que a gente sonha nem sempre acontece. O que é sonhado, porém, modifica o curso do futuro, assim como as emoções das pessoas”, comenta.

Ainda com base em ideias de Sidarta Ribeiro, presentes no livro O oráculo da noite, Simone Ordones destaca que o sonho é uma tentativa de simular o amanhã, com base no ontem. A recombinação disso abre espaços para novas ideias e criatividade. “Nós, povos modernos, temos dado bem menos atenção aos sonhos. Ficamos mais racionais, e paramos de sondar o futuro. Durante a coleta de experiências que fizemos, numa campanha mais íntima, ouvimos que muitas pessoas não sonham – ou não se lembram do que sonharam. Eu estava incluída nessa turma, pois raramente me lembrava deles. Agora, porém, pratico o exercício de anotar e lembrar. Ainda estou em processo, na tentativa de ficar mais atenta aos sonhos”, diz a atriz, ao ressaltar que a riqueza do projeto está no fato de ele nascer no caminho das sensações, impressões e emoções – e não da mera lógica.

Quanto às etapas do espetáculo, Simone Ordones chama atenção para a cena do encontro entre atores e sonhadores, gravada, no Galpão Cine Horto, no início de agosto. “Cada ator montou a cena de um sonho, de duas a três pessoas, e convidamos os sonhadores para assistirem, na plateia, à encenação. A experiência foi incrível, além de muito saudosa e feliz, pois havia muito tempo – desde março de 2020 – que nós, atores, não nos apresentávamos no palco”, lembra, ao frisar que o processo tem sido muito rico para todos: “Espero que também seja revigorante para os sonhadores, que terão seus sonhos encenados, e para o público”.

Para Eduardo Moreira, um dos atores do Grupo Galpão, Pedro Brício é um dos principais dramaturgos do Brasil. “Sua obra é bastante inquieta e eclética, em permanente reflexão sobre nosso tempo e nossa realidade. Nós, do Galpão, e ele já nos cruzamos várias vezes, seja em oficinas, seja em espetáculos, montagens – dele e nossas. Esse convívio esparso sempre suscitou nosso interesse por seu trabalho e sua pesquisa”, salienta o artista, ao lembrar que o projeto “Dramaturgias”, que visa pensar, primordialmente, a criação de estórias e enredos, foi ótima oportunidade para que se desenvolvesse a primeira parceria: “Tomara que seja a primeira de muitas, e que, logo, possamos estabelecer novas colaborações e novos projetos presenciais juntos. A inquietação e a vontade de dizer coisas às pessoas, por meio do teatro, são pontos de convergência permanente de nossos trabalhos”.

Sinopse

Sonhos de uma noite com o Galpão faz uma viagem onírica, poética e essencialmente teatral a partir da coleta e da pesquisa de mais de 150 sonhos nesse período de pandemia. Com texto e direção de Pedro Brício, o trabalho mergulha no universo dos sonhadores, convidando o público a compartilhar desta experiência e adentrar nestas frestas que misturam teatro e audiovisual. O resultado é um exercício de grande liberdade cênica, que divide com o público questões sobre o modo como sonharemos o futuro, se estamos sonhando coletivamente, se nossos sonhos têm revelado traumas do período de isolamento e pandemia, e até onde, artisticamente, podemos ampliar a própria experiência do sonhador.


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