Antes de o Canastra conquistar o mundo, o Serro já unia a técnica portuguesa à identidade culinária mineira que começava a se formar
Queijo do Serro nasce no auge do ciclo do ouro
Nas mesas mineiras e nos índices de exportação, o queijo Canastra costuma ser o centro das atenções. É um rei coroado, premiado em concursos e amado até fora do país. Há, no entanto, um segredo que o Canastra não conta: ele não foi o primeiro. Antes de seu nome se espalhar pelo mundo, um outro já nascia nas serras do interior, moldado pelo tempo e pelas mãos hábeis das queijeiras do Serro.
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O queijo do Serro inaugura a saga da queijaria nas Gerais, e liga o velho universo português a um novo mundo de sabores.
A história começa no século XVIII, quando o ouro transformava vilas em centros de riqueza. Uma delas era a antiga Vila do Príncipe, atual cidade do Serro. Para lá, além de ferramentas de garimpo, os colonizadores portugueses levavam nas malas as receitas da Serra da Estrela, um dos queijos mais tradicionais de Portugal.
O que aconteceu foi mais do que mera reprodução. O clima serrano, o pasto, o gado e o saber das mulheres que faziam o queijo — talvez o ingrediente mais importante — deram à receita um novo destino. Com textura mais úmida, massa branca, sabor suave e um leve toque ácido, nasceu um produto verdadeiramente brasileiro. E também o primeiro polo queijeiro de Minas Gerais.
Se o Canastra é vigoroso, de casca grossa e gosto marcante, o Serro prefere a sutileza, como se falasse com voz mansa. Sua massa é menos prensada, o tempo de cura é mais curto e a umidade se mantém, o que garante o frescor.
Em 2008, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu oficialmente a importância dessa tradição. O “Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas” — nas regiões do Serro, da Canastra e do Salitre — foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.