Desenhos encontrados durante reforma em imóvel histórico agora ajudam pesquisadores a investigar a presença africana no Brasil colonial
Gravuras encontradas em ambiente subterrâneo abrem novas pistas sobre memórias e formas de expressão no período colonial
Uma reforma em um casarão histórico de Ouro Preto, em Minas Gerais, revelou registros que permaneceram escondidos por séculos. Durante obras em um cômodo subterrâneo do imóvel, surgiram desenhos feitos diretamente nas paredes. Agora, pesquisadores tentam entender quem criou essas imagens e o que elas revelam sobre a presença africana no Brasil colonial.
A descoberta aconteceu em 2017. No entanto, o reconhecimento oficial veio neste ano, quando o Iphan registrou o espaço como sítio arqueológico com o nome “Inscrições Afrodiaspóricas”. Com isso, o local entrou para um conjunto de áreas consideradas importantes para estudos sobre a diáspora africana no país.
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O casarão fica na Rua Conde de Bobadela, antiga Rua Direita, uma das regiões mais tradicionais de Ouro Preto. Construído há mais de 260 anos, o imóvel foi comprado por uma família na década de 1980 com a intenção de abrir um restaurante.
Anos depois, durante uma reforma em um quarto abaixo do nível da rua, apareceram marcas que pareciam apenas sinais do tempo. Porém, conforme os trabalhos avançaram, ficou claro que aqueles registros tinham outro significado.
Por esse motivo, a família interrompeu a obra e buscou apoio para investigar o material encontrado.
Atualmente, o arqueólogo e historiador Leonardo Klink, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordena o estudo das inscrições. Até agora, a equipe identificou 26 gravuras. Entre os desenhos aparecem:
Além disso, os pesquisadores observaram diferenças entre os traços, o que reforça a hipótese de que pessoas diferentes produziram os registros ao longo do tempo.
Ainda não existe uma resposta definitiva sobre autoria ou data. Mesmo assim, a principal linha de pesquisa aponta que pessoas escravizadas de diferentes gerações deixaram essas marcas entre os séculos 18 e 19.
Ao mesmo tempo, os especialistas avaliam se o espaço subterrâneo teve relação com atividades ligadas à escravidão. Apesar disso, ainda faltam elementos para confirmar se o cômodo funcionou como senzala.
Outro ponto chamou atenção durante a análise.
Segundo os pesquisadores, a parede onde os desenhos apareceram talvez tenha cumprido uma função além da construção do ambiente. Em outras palavras, o espaço pode ter servido também como superfície para criar registros.
Para produzir as inscrições, os autores provavelmente recorreram a materiais disponíveis na época. Entre eles estão pigmentos minerais, pedaços de vidro e objetos metálicos usados para riscar a parede.
Agora, a pesquisa entra em uma nova etapa. A partir desse trabalho, os especialistas esperam compreender melhor o significado das imagens e, consequentemente, ampliar o entendimento sobre experiências, memórias e formas de expressão da população escravizada em Minas Gerais.