As ruas da capital mineira estão cheias de pessoas com trajetórias incríveis; fomos atrás de personagens que representam a alma de Belo Horizonte
Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte, foi cenário de várias figuras históricas da cidade
Belo Horizonte é feita de muito mais do que ruas planejadas e cartões-postais. A verdadeira alma da cidade está nas histórias de personagens que, com seus talentos, trajetórias e personalidades marcantes, ajudaram a construir a identidade cultural da capital mineira. Figuras como Dona Maria das Ervas, Mestre Conga e Dona Lucinha representam diferentes aspectos da tradição belo-horizontina, enquanto a lendária Maria Papuda segue viva no imaginário popular da cidade.
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Conhecer a história desses personagens é uma forma de enxergar Belo Horizonte por outra perspectiva, explorando a música, a gastronomia, a religiosidade, a cultura popular e as lendas urbanas que fazem parte da memória coletiva dos belo-horizontinos. Suas trajetórias, reais ou lendárias, continuam ligadas a lugares emblemáticos e aos costumes que encantam moradores e visitantes.
Falar do Mercado Central sem mencionar Maria da Conceição Martins, conhecida como Dona Maria das Ervas, é praticamente impossível. Durante décadas, ela foi uma das figuras mais conhecidas dos corredores do mercado, onde conquistou clientes e admiradores pelo conhecimento sobre ervas medicinais, raízes, garrafadas e saberes populares.
Sua banca se transformou em um ponto de encontro para moradores e turistas em busca de orientações, conversas e tradições passadas de geração em geração. Mais do que comerciante, Dona Maria das Ervas se tornou um símbolo da cultura popular de Belo Horizonte e da riqueza dos conhecimentos tradicionais mineiros, deixando um legado que permanece na memória de quem frequentou o Mercado Central.
O samba de Belo Horizonte teve em José Luiz Lourenço, o Mestre Conga, um de seus principais representantes. Fundador de uma das primeiras escolas de samba da capital e referência da Velha Guarda, dedicou a vida à preservação do samba e da cultura afro-brasileira em Minas Gerais.
Com seu inseparável pandeiro, participou de rodas de samba, desfiles e manifestações culturais que ajudaram a consolidar a tradição carnavalesca da cidade. Mestre Conga faleceu em março de 2024, aos 95 anos, deixando um legado reconhecido como parte fundamental da história cultural de Belo Horizonte.
Entre os personagens, Maria Lúcia Clementino Nunes, a Dona Lucinha, transformou receitas tradicionais de família em um dos maiores patrimônios da culinária mineira. À frente de seus restaurantes, tornou-se uma das principais divulgadoras da gastronomia do estado, valorizando ingredientes, técnicas e modos de preparo transmitidos entre gerações.
Mais do que servir pratos típicos, Dona Lucinha ajudou a preservar a memória alimentar de Minas Gerais, mostrando que a cozinha também é uma expressão da cultura e da história do povo mineiro. Após sua morte, em 2019, seu legado segue vivo por meio da família e dos estabelecimentos que mantêm suas receitas e sua proposta de valorizar a culinária tradicional.
Segundo a tradição oral, ela viveu no antigo Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Curral del Rei, demolido para a construção da nova capital no fim do século XIX.
A lenda conta que, inconformada com a desapropriação de sua casa durante a construção de Belo Horizonte, Maria Papuda teria lançado uma praga contra o Palácio da Liberdade e os governantes da cidade. Embora não existam registros históricos que comprovem a história, a personagem atravessou gerações e permanece como uma das lendas urbanas mais conhecidas da capital, reforçando como memória, tradição e imaginário também fazem parte da identidade belo-horizontina.