Figura que marcou gerações na Cantina do Lucas e virou parte da história da cidade usava um código para alertar militantes durante a ditadura
Seu Olímpio nasceu em Santos, mas recebeu o título de cidadão honorário de Belo Horizonte
Quase 107 anos atrás, em dezembro de 1918, nascia Olympio Perez Munhoz, uma das figuras mais emblemáticas da boemia da capital mineira. O filho de espanhóis que ficaria conhecido como “Seu Olímpio” veio de Santos para Belo Horizonte em meados da década de 1950, e, desde a inauguração da Cantina do Lucas, no Edifício Maletta, tornou-se presença constante no salão. Sempre atento aos clientes, aos debates que fervilhavam nas mesas e ao clima político do país, seu nome ganhou o Guinness Book pela longevidade na profissão: nenhum garçom brasileiro atuou por tanto tempo quanto ele.
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Na Cantina do Lucas, o público o tratava como personagem indispensável. Artistas, jornalistas, escritores, militantes e outros habitués se acostumaram com a figura acompanhada de opiniões contundentes. Com o tempo, ele se tornou parte do patrimônio afetivo do restaurante tombado em 1997 — e, por extensão, da própria cidade. O reconhecimento oficial veio quando Seu Olímpio recebeu o título de cidadão honorário de Belo Horizonte.
Seu Olímpio assumia abertamente suas posições políticas, o que o aproximou de figuras importantes da esquerda brasileira. Durante a ditadura, tornou-se um escudo informal para frequentadores visados pela repressão.
Quando agentes do Dops apareciam na cantina, ele se aproximava das mesas de forma discreta para alertar os militantes e impedir que quem estivesse ali para debater fosse surpreendido: “Hoje não tem filé cubano”, dizia.
Crítico ferrenho de autoritarismos, Seu Olímpio só perdeu o controle quando ouviu um cliente elogiar Francisco Franco, o ditador que horrorizou a terra natal de sua família. Naquele dia, segundo amigos, sua paciência chegou ao limite.
Impaciente com tolices e rigoroso com os chatos, o garçom tinha fama de franco. Aceitava excessos etílicos apenas quando vinham acompanhados de boa conversa. Admirava figuras históricas e revolucionárias e cultivava sonhos socialistas. Entre histórias quase inacreditáveis, dizia ter convivido com Santos Dumont, com quem conversaria bastante.
Após a morte da esposa, passou a morar com o filho. Mesmo nessa fase, continuou ligado ao universo da Cantina do Lucas, onde era celebrado por funcionários e clientes. Morreu em 2003, aos 84 anos, deixando uma coleção de lembranças que atravessou décadas.
Ainda hoje, o Filé Olympio, criado em homenagem ao garçom, é um dos pratos mais queridos da cantina, servido com acompanhamentos que ele ajudou a popularizar entre fregueses.