Com diferentes ações, jovens criam maneiras de dividir sentimentos com o próximo
Por Débora Gomes, jornalista Sou BH
Já imaginou receber
uma carta de alguém que não vê há anos, de um amigo ou de um amor “quase”
esquecido? Em tempos em que a internet facilita e agiliza a comunicação,
receber um envelope com palavras escritas à mão é uma demonstração de afeto e
dedicação sincera. E, seguindo o
objetivo de estimular a aproximação por meio da palavra, o projeto “Chá com Cartas” vem espalhando amor por alguns cantos de BH desde 2012.
O “chá” foi criado
pelo designer e artista Ramon Brant, 23. Ao receber uma carta de uma amiga, com
os dizeres “Saudade é o amor que fica”, o jovem se viu com o desejo de
compartilhar bons sentimentos com o mundo. “A carta mexeu muito comigo. O
projeto parte da necessidade de fugir do cotidiano, desacelerar e pensar mais
no outro”, conta.
O projeto desenvolve
várias ações, dentre oficinas e intervenções, mas, segundo Ramon, a principal
delas é chamada “plantação e colheita”, realizada em três dias. “No primeiro,
um de nós sai às ruas, caracterizado de mensageiro antigo e deixa envelopes
pelas casas da cidade. Um recado vai dentro do envelope: ‘escreva uma carta para
um amigo, um parente, um amor, que no dia seguinte o nosso mensageiro irá
recolher sua carta e levar pessoalmente até o destinatário’”, explica o
idealizador do projeto. Em um segundo momento, as possíveis cartas são
recolhidas e, no terceiro dia, são entregues pessoalmente aos destinatários.
“Espero reforçar os encontros, estreitar os laços e alimentar as relações de
todos que tiverem contato com o projeto e com a arte de escrever cartas”,
analisa Ramon.
Também com a ideia de
dividir amor pelos quatro cantos da cidade, o designer Lucas Aguiar, 27, criou
o “He-arts”. O projeto consiste em espalhar ilustrações de corações em pontos
da capital e também nas redes sociais, todos carregados de sentimentos, cultura
e poesia. “Estava folheando uma revista sobre Arte e Design quando li a palavra
coração, e percebi que a separação dela gera duas: cor e ação”, conta Lucas.
E foi com a
ilustração de um coração humano, colorido, em formas irregulares, na intenção
de demonstrar confusão e sensibilidade que, sem qualquer pretensão, Lucas
ganhou diversas “curtidas” nas redes sociais e viu ali uma oportunidade de
demonstrar suas inquietações e sentimentos.
“É uma externalização de algo que se é. Cada um tem sua própria bagagem dentro
do seu próprio coração”, explica o designer, que já transformou alguns de seus
desenhos em adesivos e colou em ruas do Centro e Savassi.
Hoje, com pouco mais
de dois meses do He-arts, Lucas possui quase quatro mil seguidores no Instagram
e já teve algumas de suas ilustrações compartilhadas por famosos nas redes. “Se
as pessoas forem tocadas de alguma forma, emocionalmente, sentimentalmente, e o
principal, sinceramente por qualquer coisa que tenha sido feita pelas minhas
mãos, eu já acho tudo isso válido”, completa Lucas.
E, quando se fala em
amor, não há como esquecer o “Em Nome do Amor”, coletivo criado na intenção de
ocupar a cidade celebrando o amor em suas diversas formas. “Ele surgiu em
agosto de 2013, a partir da brincadeira que fiz com um amigo. Naquela época,
achava que faltavam lugares de encontros na cidade, produzidos especialmente
com essa proposta de despertar afetos”, conta uma das idealizadoras do projeto,
Gabriela Lotus.
O “Em Nome do Amor”
já realizou diversos encontros na capital, sempre em praças e locais públicos,
“bem no estilo bailinho, como os do Silvio Santos”, exemplifica Gabriela. Assim
como o Chá com Cartas e o He-arts, o projeto coletivo não possui patrocínio ou
ajuda financeira. “Há sempre colaboração de gente de boa vontade, das músicas à
decoração”, completa a idealizadora, garantindo que o coletivo está sempre
aberto a somar e “abraçar quem chega”.
O projeto possui uma
página no Facebook em que divulgam eventos e ações, além de compartilhar textos
e palavras de amor e afeto. “Acho que a maior mudança é as pessoas entenderem e
internalizarem que o espaço público é nosso. E que está aberto aos encontros e
celebrações. Em minha vida, o ‘Em Nome do Amor’ é a constatação de que o amor
existe e é mesmo feito a muitas mãos”, conclui Gabriela.