Dama do teatro brasileiro se apresenta no Cine Theatro Brasil Vallourec com texto de dramaturgo irlandês
Por Camila de Ávila jornalista Sou BH
Nos
dia 25 e 26 de outubro, o grande teatro do Cine Theatro Brasil Vallourec (Rua dos Carijós, 258 – Centro) recebe a peça “Tríptico
Samuel Becket” que traz no elenco uma das mais importantes atrizes do país,
Nathália Timberg. A peça conta com os últimos escritos de Becket e apresenta
uma experiência na qual, quem assiste, saí do teatro muito diferente.
O
dramaturgo irlandês Samuel Becket (1906-1989) escreveu a trilogia composta
pelos escritos “Companhia” (1980), “Mal visto, mal dito” (1981) e “Pra frente o
pior” (1983), em resposta à outra trinca de textos escritas na década de 1950, “Molloy”
(1951), “Malone morre” (1951) e “O inominável” (1953). Segundo o diretor da
peça “Tríptico Samuel Becket”, Roberto Alvin, “esses textos, dá década de 1980,
condensam todas as questões formais e existenciais do autor, são quase um
testamento de um dos maiores escritores da história do teatro mundial”, conta.
A
produção é uma livre adaptação de Roberto Alvin, dos textos finais de Becket.
“Esses textos são inéditos no Brasil”, afirma o diretor. A montagem tem como
objetivo apresentar o que o pensamento de Beckett fará com os homens do século
XXI.
Alvin
fez com que três mulheres interpretassem os escritos de Becket, Nathalia
Timberg, “com quem sempre quis trabalhar”, conta o diretor, Juliana Galdino e
Paula Spinelli. Elas interpretam fases da vida de uma pessoa que vai da
infância à velhice com a iminência da morte. “Não é a trajetória de uma mulher,
é a trajetória de todos nós. Cada figura que Becket construiu representa toda a
humanidade”, explica.
A
atriz Nathália Timberg ficou com a interpretação de “Mal visto, mal dito” e
explica o que o texto fala para o público. “Esse momento não é mais de vida,
você não sabe se ela está mais para cá do que para lá. É um momento de
revisitação constante do outro que coexiste dentro de nós”, conta a atriz.
Nathália conta que a força do texto é intensa. “A cada dia de espetáculo há uma
sensação muito forte, muito instigante, a palavra certa é perturbadora”, define
a atriz.
Roberto
Alvin também coloca a palavra perturbadora como chave para definir a sensação
que a peça causa na plateia. “Becket foi o autor mais arrojado e radical do
século XX e nos leva a sensações desconhecidas através de experiências
perturbadoras consigo mesmo. É uma peça de autoconhecimento”, diz.
Nathália
diz que sempre quis fazer um texto do irlandês e o convite de Alvin veio de
encontro a seu anseio. “Diante do texto dessa profundidade como é o texto de
Becket, não há nenhuma performance. Ele nos toca, os intérpretes,
profundamente, e queremos e conseguimos tocar a sensibilidade do outro”,
afirma.
A
peça trata de forma muito clara da morte, do fim. Segundo Alvin a peça “não é
mórbida, não é deprimente. A morte é um fato e é implacável, e o tempo é
vivenciado somente no presente, podemos ressignificar as nossas vidas de forma
poética que é a proposta do Becket nestes textos”, explica.
Alvin
afirma que a peça não é um texto difícil. “Na estreia em São Paulo, eu e até a
Nathália estávamos com medo pelo fato de ser um texto deste autor que é
considerado difícil e pesado. Porém, desde a primeira semana todos os lugares
estavam lotados”, conta. O texto de
Becket é um texto palatável em que é necessário estar com a mente e o coração
aberto. “Estamos no século XXI e ninguém é mais bobo e desinformado. As pessoas
querem passar por uma experiência transfiguradora. Quem quer ver comédia
rasgada liga o YouTube, não precisa ir ao teatro”, ressalta. Nathália endossa a
opinião de Alvin. “Estamos tão envolvidos com coisas rasas que estamos carentes
de algo que nos questione, que nos tire do lugar. O texto de Becket nos leva da
incomunicabilidade à memoria e brinca com o lado emocional de cada um”, explica
a atriz.
Em
BH, desde o dia 19 de outubro, no qual a atriz interpretou o monólogo “Paixão”,
Nathália afirma que “vocês terão uma ingestão de Nathália. Visito sempre BH e
Minas através de seus músicos, poetas e artistas. Sou apaixonada pelo senhor de
Itabira”, diz. Segundo a atriz que
completou em agosto 85 anos de vida, falta ainda muito a fazer. “Nosso
horizonte caminha conosco. À medida que realizamos as coisas queremos mais.
Imagina você neste universo que é a interpretação o tanto que ainda tenho que
fazer. Só não vou ter tempo”, conta.