Entrevista Especial

“Encontro e Despedida”: filme gravado em BH aposta no silêncio para narrar relação marcada por ausência

Filme Encontro e Despedida, dirigido por Guilherme Araponga, começa a ser rodado em hospital de BH e aborda relação entre pai e filho marcada por ausência


Créditos da imagem: Maria Clara Landim / Sou BH
Gravações de Encontro e Despedida acontecem no Hospital São Rafael, em Belo Horizonte; filme reúne José de Abreu e elenco mineiro em história sobre pai e filho Gravações de Encontro e Despedida acontecem no Hospital São Rafael, em Belo Horizonte; filme reúne José de Abreu e elenco mineiro em história sobre pai e filho

Maria Clara Landim

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22/04/26 às 08:56 - Atualizado em 22/04/26 às 11:01
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As gravações de Encontro e Despedida transformaram o Hospital São Rafael, em Belo Horizonte, em um espaço de tensão, memória e reconstrução emocional. O novo filme do diretor Guilherme Araponga começou a ser rodado em abril e parte de uma experiência pessoal para construir uma narrativa sobre abandono afetivo e os limites das relações familiares.

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Diferente de produções que apostam em grandes reviravoltas, o longa, inicialmente concebido como um curta em plano sequência, se concentra em um único momento: o reencontro entre um pai ausente e o filho, anos depois, em um leito hospitalar. É nesse ambiente restrito que os personagens são colocados frente a frente, sem possibilidade de fuga, obrigados a lidar com o que ficou pendente ao longo da vida.

A escolha pelo plano sequência, técnica em que a cena é filmada sem cortes aparentes, é central para a proposta do filme e influencia diretamente o trabalho dos atores e da equipe.

“Quando a gente fala plano sequência, geralmente o público não entende. É quando a câmera filma sem parar. A gente tira o controle da edição e devolve o tempo para os atores, que passam a ditar o ritmo da cena”, explica o diretor Guilherme Araponga.

Segundo ele, a opção aproxima a narrativa da experiência real. “A vida não tem corte. Então, quando você trabalha dessa forma, você se aproxima mais do real, com erros, improvisos e também acertos que surgem no momento.”

Hospital como cenário e memória

A escolha da locação não é apenas estética. Segundo o diretor, o hospital carrega uma dimensão simbólica que atravessa toda a narrativa e dialoga diretamente com a origem da história.

“Voltar para Belo Horizonte, onde essa história aconteceu, é muito forte. Quando eu passo perto do hospital onde vivi isso, eu penso: a vida real está aqui. E o filme é uma tentativa de reorganizar esses pensamentos, de entender o que foi vivido. Mas, durante a filmagem, eu ainda me sinto dentro desse processo”, afirma Guilherme Araponga.

A produção reúne nomes conhecidos do audiovisual brasileiro, como José de Abreu, que interpreta o pai, além de Bernardo Filaretti e Luiza Filaretti. O elenco é majoritariamente mineiro, o que, para o diretor, reforça a conexão do projeto com o território onde a história se desenrola.

Relação sem reconciliação

O roteiro acompanha uma relação que nunca se consolidou. O pai, agora fragilizado, depende do cuidado de um filho com quem não construiu vínculo. A situação limite expõe contradições, ressentimentos e também tentativas, ainda que frágeis, de aproximação.

“A vida não é novela. Nem sempre há redenção. Eu não queria fazer um filme para fazer as pessoas chorarem, mas um filme que fizesse o público se perguntar: e se fosse comigo?”, diz o diretor.

Silêncio como linguagem

A proposta narrativa se apoia em silêncios, pausas e gestos contidos. Mais do que nos diálogos, o filme constrói sua tensão no que não é dito, exigindo do espectador atenção aos detalhes e às ausências.

Além disso, Encontro e Despedida será exibido em preto e branco e no formato 4:3, mais fechado do que o padrão contemporâneo. A escolha estética, segundo Guilherme Araponga, acompanha a própria origem do projeto.

“Desde o início, eu nunca imaginei esse filme em cores. Sempre pensei nele em preto e branco, porque é uma história de contrastes, de profundidades, de luz e sombra dentro das relações”, afirma o diretor.

O enquadramento mais fechado também reforça essa proposta. “O 4:3 cria uma sensação de limite. É como se o público não tivesse acesso completo àquela relação. Você vê um recorte, como acontece na vida real”, completa.

Técnica e construção dos personagens

Para José de Abreu, que acumula mais de seis décadas de carreira, o desafio está em construir um personagem emocionalmente complexo sem recorrer à própria dor. O ator, que já vivenciou a perda de um filho aos 21 anos, afirma que experiências pessoais não são utilizadas diretamente como ferramenta de atuação.

“O ator finge que sofre a dor e convence o público disso. Quem sofre é o personagem, não o ator. Eu não uso experiências da minha vida para provocar emoção. Eu busco o que está no texto, na construção do personagem”, afirma.

Segundo ele, a conexão com a história está no interesse pelo tema, e não na reprodução de vivências pessoais. “É uma história que me interessa. O roteiro é muito bom, e essa relação de pai e filho é algo que sempre me chamou atenção”, diz.

No filme, seu personagem é direto ao reconhecer o fracasso na relação com o filho.

“Ele diz claramente que nunca teve talento para ser pai. Não existe uma tentativa de redenção. Existe um encontro que nunca aconteceu antes. E o que isso significa fica em aberto.”

Entre a raiva e o vazio

Essa ambiguidade também aparece na construção do filho, interpretado por Bernardo Filaretti. O personagem carrega marcas do abandono, mas não se resume à revolta.

“Existe uma raiva, mas é muito mais um vazio. Uma vulnerabilidade. Criar esse personagem foi um processo muito interno, de entender o que existe dentro dele e também dentro de mim”, relata o ator.

A troca em cena com José de Abreu é descrita por ele como essencial para a construção da narrativa.

“É um jogo. Você joga e o outro devolve. E o Zé é um ator que joga junto o tempo todo. Isso faz muita diferença.”

Para além da experiência em cena, Bernardo também projeta o impacto do filme no público.

“Eu espero que seja um processo de cura. É um filme denso, que fala dessa relação de pai e filho, que muita gente vai se identificar. Que as pessoas saiam reflexivas, de alguma forma tocadas por isso”, afirma.

Sensibilidade e identificação

Luiza Filaretti destaca o papel do silêncio na condução da história e a necessidade de um trabalho sensível por parte do elenco.

“É um filme muito denso emocionalmente, muito de pausa, de silêncio. A minha personagem entra como um contraponto, trazendo um pouco de leveza, mas sem sair da sensibilidade do momento. É um nível de concentração muito grande”, afirma.

Segundo a atriz, a personagem funciona como uma tentativa de respiro em meio à tensão do reencontro entre pai e filho, ainda que também seja atravessada pelo impacto da situação.

“Ela chega com um pouco mais de leveza, de humor, para quebrar aquele clima, mas é impossível não ser afetada por tudo que está acontecendo ali. A gente percebe os detalhes, a relação dos dois, e isso também atravessa ela”, explica.

Luiza também acredita que o público deve se identificar com a proposta.

“Todo mundo tem alguma relação que pode se reconhecer ali. É impossível não se envolver.”

Um filme sem respostas prontas

Sem oferecer respostas prontas, Encontro e Despedida aposta na complexidade das relações humanas. O encontro entre pai e filho não garante reconciliação, nem transforma automaticamente o passado. O que o filme propõe é um olhar mais direto, e menos idealizado, sobre vínculos que permanecem inacabados.

“Às vezes a gente acha que não dá mais tempo. Mas talvez ainda dê para alguma coisa. Nem que seja para entender”, reflete o diretor.

Com previsão de estreia para o segundo semestre de 2026, o filme deve percorrer festivais antes de chegar ao público. Paralelamente, a equipe já planeja expandir a história em um longa-metragem, aprofundando os conflitos apresentados nesta primeira versão.

Até lá, Encontro e Despedida segue sendo construído dentro de um hospital, cenário onde ficção e memória se cruzam, e onde, entre silêncios, ainda há espaço para perguntas que não encontram resposta fácil.