Documentário “Sá Rainhas” destaca o protagonismo feminino no Congado de Ibertioga, com estreia gratuita e lançamento online no YouTube
Sá Rainhas de Ibertioga protagonizam documentário que evidencia o papel feminino na preservação do Congado e da tradição afro-brasileira
O documentário “Sá Rainhas” coloca no centro da narrativa mulheres que há gerações sustentam o Congado de Ibertioga, na Zona da Mata mineira. Dirigido por Ana Luísa Cosse e Marina Araújo, o curta estreia no dia 25 de abril, com exibição gratuita na cidade, e chega ao YouTube no dia 30, ampliando o acesso ao público.
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Ao abordar o universo dos Congados e Reinados, reconhecidos como patrimônio imaterial em Minas Gerais, o filme desloca o olhar tradicionalmente masculino e evidencia o papel feminino dentro dessa manifestação cultural afro-brasileira. Assim, a obra revela histórias que, embora fundamentais, costumam permanecer à margem das narrativas oficiais.
O documentário acompanha cinco personagens: Sá Rainha Andreza Márcia da Silva, Sá Rainha Iasmim Alice, Sá Rainha Joana D’Arc da Silva, Sá Rainha Maria Francisca de Jesus e Sá Rainha Yonara Tavares Campos. Juntas, elas representam diferentes gerações que compartilham a devoção a Nossa Senhora do Rosário e a Nossa Senhora das Mercês.
Durante a Festa do Rosário, essas mulheres assumem o posto simbólico de rainhas. No entanto, o filme mostra que o protagonismo vai além da celebração: ele se manifesta no cuidado com os rituais, na transmissão de saberes e na manutenção da memória coletiva. Dessa forma, o curta evidencia como fé e ancestralidade se traduzem em práticas cotidianas que sustentam a tradição.
A ideia do documentário surgiu justamente da ausência dessas vozes femininas nas narrativas sobre o Congado local. Segundo as diretoras, o contato com a história da irmandade revelou uma dimensão pouco explorada: a intergeracionalidade entre as chamadas “Sá Rainhas”.
Ao inverter o foco, “Sá Rainhas” não apenas registra histórias individuais, mas também constrói um retrato coletivo. Além disso, o filme propõe uma reflexão sobre memória, pertencimento e resistência cultural, destacando como essas mulheres atuam como guardiãs de um legado que atravessa o tempo.
Os Congados mineiros reúnem canto, dança, cortejo e religiosidade, formando uma das expressões mais marcantes da cultura afro-brasileira no estado. Em Ibertioga, essa tradição ganha contornos específicos com a presença de dezenas de rainhas de promessa, mulheres que dedicam a vida à devoção.
Historicamente, elas ocuparam funções de bastidores, como a organização das festas e o cuidado com os grupos. No entanto, com o passar dos anos, passaram a ocupar também posições de liderança. Hoje, além de participarem ativamente dos cortejos, são responsáveis por preservar os fundamentos simbólicos e espirituais da festa.
As diretoras acumulam trabalhos relevantes no audiovisual. Entre eles, destacam-se “O Bastão e o Rosário” (2017) e “A Luta das Auras” (2022), produções que circularam em festivais nacionais e internacionais e receberam premiações. Com “Sá Rainhas”, a dupla aprofunda o interesse por narrativas ligadas à cultura popular, à religiosidade e à identidade negra.
A estreia acontece na sede da Sociedade Musical Lira Santo Antônio, em Ibertioga, com entrada gratuita e presença das protagonistas e da equipe. Em seguida, o filme será disponibilizado no YouTube por 90 dias, o que amplia o alcance da produção e fortalece a difusão da cultura do Congado.
Ao dar visibilidade a essas trajetórias, “Sá Rainhas” reafirma o papel das mulheres como pilares de uma tradição viva. Mais do que registrar uma manifestação cultural, o documentário contribui para reposicionar essas histórias no lugar de destaque que sempre ocuparam.