Em única apresentação, artista promete atender ao público no Cine Theatro Vallourec
Por Camila de Ávila jornalista Sou BH
O
cantor, compositor e, porque não dizer, menestrel, que é uma espécie de poeta e
contador de história, Oswaldo Montenegro, faz única apresentação no Grande
Teatro do Cine Theatro Brasil Vallourec (Rua dos Carijós, 258 – Centro), quinta-feira
(9), às 21h. O Show 3×4 apresenta, num formato único, com três músicos e
quatros partes, a carreira, os sucessos e as influências do artista.
Segundo
o músico, o show tem uma função. “Cada parte tenta focalizar um lado da minha
vida de compositor”, explica. No primeiro momento as músicas serão mais
alegres. “São canções que compus em estado de euforia. Todas elas ligadas por
citações bem pequenas, instrumentais, de mestres que me alegraram, como Jacob
do Bandolim, Patápio Silva, Glenn Miller, ‘teminhas’ de desenho animado, como
Pica Pau”, conta.
No
segundo momento Oswaldo atende aos pedidos do público onde tudo pode acontecer.
“Nunca me pediram pra tocar Raul. Mas às vezes surge uma solicitação
inesperada. Já aconteceu de pedirem músicas que eu não me lembrava de ter
feito”, conta.
Na
terceira parte, o artista fala um pouco de sua carreira junto ao teatro e, na
última parte “mergulhamos nas influências da seresta da minha infância em São
João Del Rei e tocamos canções que compus encharcado disso, como ‘Bandolins’, ‘Lua
e Flor’, ‘Estrelas’, ‘A Lista’, ‘Estrada Nova’, ‘Velhos Amigos’ e a mais
recente, ‘Me ensina a escrever’”, conta.
Muito
influenciado pelas Minas Gerais, o artista explica que o estado é a sua casa.
“Ter morado na minha infância em São João Del Rei influenciou na minha maneira
de ver e de sentir a arte. Eu era um garoto de oito anos andando atrás de
seresteiros que passavam os finais de semana tocando por aquelas ruas estreitas
e magníficas”, conta. “Até hoje não cheguei em casa. Minha casa ficou em
Minas”, constata.
Identificado
sempre por causa de canções que fez para musicais, Oswaldo afirma não gostar do
gênero. “Admirava profundamente a competência de Fred Astaire e adoro Gene
Kelly (“Cantando na Chuva”), mas me causava uma sensação estranha, a herança
operística que o musical típico tem, na qual a ação dramática é cantada. O
mocinho vai matar o bandido e, de repente, começa a cantar”, explica. A opinião
do cantor mudou quando foi apresentado para Hugo Rodas, coreografo uruguaio,
que montou em Brasília, um musical baseado nos menestréis, contadores de
histórias, onde a música conta a história, é a narradora e a narração da ação realista.
“Yan Michalski, grande crítico do teatro brasileiro, escreveu uma longa crônica
batizando e analisando o nosso estilo, fazendo com que eu próprio entendesse,
de forma acadêmica, o que estava fazendo. Usei essa mesma estética para os meus
filmes. Tanto em “Léo e Bia”, que foi meu primeiro longa-metragem, quanto em
“Solidões”, não existe a ação cantada, e sim a música como narradora”, diz.
Oswaldo
Montenegro, além de um artista inquieto, é também um homem em oposição à
tranquilidade. “Ainda não consegui nada que se pareça com o que chamam de
calma. Conheço a alegria. Sou uma pessoa
feliz. Tenho entusiasmo, mas estou longe de ser zen”, conta. Uma vez ele disse
que queria ter a calma que o compositor Renato Teixeira teve ao escrever a
canção “Tocando em frente”. “Pra me consolar fiz uma música chamada ‘Pro Renato
Teixeira’, gravamos juntos, está no Youtube, e toco no 3×4. Ali está o retrato
do encontro da tranquilidade do Renato e da minha ansiedade crônica. Mas
confesso que lido bem com essa ansiedade e hoje percebo que ela é ao mesmo
tempo motor e consequência da minha criatividade”, explica.
O
menestrel dirigiu muitos artistas em seus musicais e filmes, em especial
cantoras com timbre diferenciado, como foi o caso de Cássia Eller e Zélia
Duncan. “Tive a honra de ter cantando nos meus filmes Zé Ramalho, Alceu
Valença, Ney Matogrosso, Sandra de Sá, Zizi Possi, Zeca Baleiro, Moska e outros
grandes artistas. Percebia o quanto eles são únicos, não se parecem com nada”,
explica. Muitos cantores novos tendem a perder sua característica por tentar
agradar diretores para se inserirem no mercado. “O cara quer agradar e com isso
perde suas características próprias. O sucesso não começa enquanto alguém não
odeia o artista. É preciso marca. Pra ter marca, é preciso coragem. Não basta
compor ou cantar o que se gosta. Esse é apenas o primeiro passo, o segundo,
mais difícil, é cantar o que se é. Tem que ter muito peito”, ressalta.
Oswaldo
é fã da dança. “O ser humano se desenvolve e mostra isso de forma física no esporte
e de forma espiritual-intelectual na arte. O único que é atleta e artista é o
bailarino”, explica. O trabalho com o corpo fascina o artista que colocou isso
na letra de sua canção, “Incompatibilidade”, que diz assim: “Se você dançar a
noite inteira não significa dar bobeira/De manhã se alienar ou esquecer/É a
busca do supremo equilíbrio, num processo inteligente sua mente clarear sem
perceber”. Para Oswaldo a dança é a mistura da força com a sensibilidade. “Sou
uma espécie de tiete dessa galera que une os devaneios, as loucuras típicas da
atividade artística, com a disciplina férrea com que trabalham o seu corpo”.