Relembre a história de um dos maiores nomes da música mineira e brasileira
Milton Nascimento, o Bituca
“De tudo se faz canção”, canta Milton Nascimento, em um dos seus maiores sucessos junto com Lô Borges, “Clube da Esquina n° 2”. Nesta segunda-feira (26), o artista mineiro completa 84 anos. Dono de uma das vozes mais marcantes da música popular brasileira (MPB), o cantor e compositor construiu uma trajetória que ultrapassa um único estilo musical. Conhecido como Bituca, ele ajudou a renovar a sonoridade da música brasileira e fez de Minas Gerais um dos principais redutos da criatividade e a MPB. Conheça sua trajetória e como o artista foi capaz de encontrar inspiração, sonoridade e beleza em coisas que muitos deixariam passar, transformando tudo em canção.
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Milton nasceu em 26 de outubro de 1942, no Rio de Janeiro. Ainda criança, perdeu a mãe biológica, Maria do Carmo Nascimento, e foi criado por Lília Silva Campos e Josino Campos, um casal mineiro que o adotou e levou para Três Pontas, no Sul de Minas. A música esteve presente desde cedo em sua vida: Lília era professora de música, enquanto Josino trabalhava com eletrônica e também teve ligação com o rádio. Aos quatro anos, Milton ganhou uma pequena sanfona; na adolescência, já cantava em bailes e integrava grupos musicais com amigos.
A mudança para Belo Horizonte, no início dos anos 1960, marcou outra etapa dessa história. Na capital mineira, onde o artista veio para prestar vestibular para Economia, Milton se aproximou de músicos e compositores que compartilhavam o interesse por novas possibilidades sonoras. No bairro de Santa Tereza, especialmente na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, os encontros entre jovens artistas ajudaram a formar o ambiente criativo que daria origem ao Clube da Esquina. O movimento reuniu nomes como Lô Borges, Márcio Borges, Fernando Brant, Beto Guedes, Toninho Horta e Wagner Tiso, combinando influências da música mineira, da bossa nova, do jazz e do rock.
O reconhecimento nacional começou a ganhar força em 1967, quando Milton se destacou no Festival Internacional da Canção com “Travessia”, parceria com Fernando Brant. A partir dali, sua carreira se expandiu, tanto como intérprete quanto como compositor. Em 1972, o álbum duplo Clube da Esquina, assinado por Milton Nascimento e Lô Borges, consolidou uma das obras mais influentes da música brasileira. O trabalho reuniu canções como “Cais”, “O Trem Azul”, “Nada Será Como Antes” e “San Vicente”, apresentando uma sonoridade inovadora para a época. Até os dias atuais, o álbum é considerado por diversos especialistas um dos mais icônicos e emblemáticos da história da músico como um todo.
Nos anos seguintes, Milton ampliou esse repertório com discos que se tornaram referências da MPB. Minas (1975) explorou arranjos sofisticados e letras que dialogavam com questões sociais e políticas, enquanto Geraes (1976) aprofundou a aproximação entre diferentes tradições musicais brasileiras e latino-americanas. Em 1978, Clube da Esquina 2 retomou o espírito coletivo do movimento, reunindo artistas de diferentes gerações. Ao longo da carreira, Milton também estabeleceu parcerias com grandes nomes da música, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Wayne Shorter e Herbie Hancock, construindo pontes entre a música brasileira e o cenário internacional.
Canções como “Maria, Maria” – uma bela homenagem à sua mãe biológica -, “Para Lennon e Mccartney”, “Ponta de Areia”, “Coração de Estudante”, “Nos Bailes da Vida”, “Encontros e Despedidas” e “Bola de Meia, Bola de Gude” se tornaram parte da memória afetiva de diferentes gerações. Sua obra combina lirismo, experimentação musical e atenção às questões sociais, com referências à cultura popular, à ancestralidade negra e aos povos indígenas. A influência de Milton não se restringe aos discos: sua maneira de cantar e compor ajudou a abrir caminhos para outros artistas brasileiros e conquistou admiradores em diversos países.
Em Belo Horizonte, essa história permanece ligada ao bairro de Santa Tereza, onde a esquina que inspirou o nome do movimento se tornou um ponto de referência cultural. O Bar e Museu Clube da Esquina, na rua Paraisópolis, reúne fotografias, discos e objetos relacionados aos artistas e promove atividades dedicadas à preservação dessa memória. O espaço é parte de um legado que continua presente na cidade, na música e nas novas gerações de músicos.
Para fora do Santa Tereza, no dia 25 de setembro deste ano, Belo Horizonte foi agraciada com uma nova homenagem à Bituca, um mural de 1.600 metros quadrados no Centro da capital, na Avenida Álvares Cabral, entre as ruas Espírito Santo e Timbiras. Feito pelo projeto Fábrica de Graffiti, a arte representa o artista em diferentes fases da vida, e se tornou rapidamente um cartão postal da capital mineira.
Na última semana, o memorial localizado na esquina onde surgiu o grupo, foi vandalizado com tinta vermelha, episódio que provocou manifestações de repúdio e mobilização em defesa da preservação do patrimônio cultural. O acontecimento foi marcado por uma sociedade polarizada em que a cultura e os artistas são frequentemento atacados. A Polícia Civil e a Prefeitura de Belo Horizonte já se comprometeram a encontrar e punir o vândalo que danificou o memorial, em respeito à Milton, seus companheiros do Clube da Esquina e todos os brasileiros que se inspiram pelas suas canções.
Aos 84 anos, Milton vive uma fase distante dos palcos. O artista encerrou sua trajetória de apresentações ao vivo em novembro de 2022, com a turnê A Última Sessão de Música. Em 2025, seu filho, Augusto Nascimento, tornou público o diagnóstico de demência com corpos de Lewy, uma doença neurodegenerativa que afeta funções cognitivas e pode comprometer os movimentos. Milton também havia recebido diagnóstico de Parkinson. Em julho deste ano, ele foi internado para tratar uma pneumonia, mas sua equipe informou que apresentava boa evolução clínica e previsão de continuidade do tratamento em casa.
Apesar do diagnóstico e das dificuldades relacionadas com a doença, Milton continua pulsando arte, cultura, música e inspirando geração atrás de geração a sentir orgulho das suas origens. Com a trajetória que carrega, o artista será para sempre lembrado como um dos maiores nomes da música brasileira, que além de compor também possui o talento da voz. Nesses 84 anos de vida, e todos os dias, Bituca é símbolo de força, resistência, ancestralidade e mineiridade.