Cultura

Grupo mineiro é indicado aos dois principais prêmios de teatro do país

Espetáculo “Velocidade”, do Grupo Quatroloscinco, recebe indicações inéditas aos prêmios APCA 2025 e Shell RJ após circulação nacional


Créditos da imagem: Divulgação
Espetáculo “Velocidade”, do Grupo Quatroloscinco, propõe desacelerar o tempo e conquista reconhecimento nacional Espetáculo “Velocidade”, do Grupo Quatroloscinco, propõe desacelerar o tempo e conquista reconhecimento nacional

Maria Clara Landim

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24/12/25 às 11:31
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O espetáculo “Velocidade”, do Grupo Quatroloscinco Teatro do Comum, alcançou um dos momentos mais emblemáticos de sua trajetória ao receber três indicações aos principais prêmios do teatro brasileiro. Após realizar circulação nacional por quatro capitais em 2025, a montagem foi indicada aos prêmios APCA 2025 e Shell Rio de Janeiro 2025, reconhecimento inédito nos 18 anos de atuação do grupo sediado em Belo Horizonte.

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A produção concorre a Melhor Espetáculo e Melhor Dramaturgia, assinada por Marcos Coletta e Assis Benevenuto, no APCA 2025, além de disputar o Prêmio Shell RJ 2025 na categoria Melhor Iluminação, pelo trabalho de Marina Arthuzzi. As indicações colocam “Velocidade” em diálogo direto com algumas das criações mais relevantes do teatro contemporâneo brasileiro e reforçam a presença de grupos mineiros no circuito nacional de premiações.

Reconhecimento inédito após 18 anos de trajetória

Fundado há quase duas décadas, o Grupo Quatroloscinco construiu sua história a partir de uma pesquisa continuada que articula dramaturgia autoral, criação coletiva e investigação de linguagem. As indicações aos prêmios APCA e Shell RJ marcam um ponto de virada na trajetória do grupo, que, pela primeira vez, figura entre os principais concorrentes dessas premiações nacionais.

Além disso, o reconhecimento evidencia a consolidação de uma cena teatral produzida em Belo Horizonte, historicamente ativa, mas nem sempre visibilizada no circuito de grandes prêmios. Nesse contexto, “Velocidade” se afirma como síntese de um percurso artístico amadurecido ao longo de anos de experimentação.

Uma peça que propõe desacelerar o tempo

Dirigido por Ricardo Alves Jr. e Ítalo Laureano, “Velocidade” é a décima montagem do Quatroloscinco e parte de uma provocação central: e se fosse possível desacelerar o tempo? A dramaturgia se inspira no ensaio “Notas sobre os doentes de velocidade”, da autora mexicana Vivian Abenshushan, e dialoga com outras referências literárias e filosóficas para refletir sobre a aceleração da vida contemporânea.

A peça se estrutura como um livro-sonho, dividido em capa, prefácio, dedicatória, sete capítulos e verso da capa. A partir dessa organização, cenas fragmentadas e sobrepostas abordam relações familiares, dinâmicas de trabalho, memórias de infância, sonhos interrompidos e a constante incerteza em relação ao futuro.

Teatro e cinema em diálogo poético

Repetindo a parceria com o cineasta Ricardo Alves Jr., o Quatroloscinco aprofunda o diálogo entre teatro e cinema, desta vez a partir da sonoridade e dos cortes de cena. A dramaturgia aposta em situações inacabadas que surgem e desaparecem como num fluxo de pensamento, criando uma narrativa não linear e aberta à interpretação do espectador.

Esse procedimento amplia a dimensão sensorial do espetáculo e contribui para a construção de uma experiência que se afasta da lógica tradicional de começo, meio e fim, reforçando a sensação de suspensão temporal.

Coralidade, luz e paisagens em movimento

O trabalho coletivo dos atores, Rejane Faria, Michele Bernardino, Assis Benevenuto, Ítalo Laureano e Marcos Coletta, enfatiza a coralidade como princípio de cena. Os corpos compõem paisagens em constante transformação, explorando variações de ritmo, pausa e aceleração.

Nesse processo, a iluminação criada por Marina Arthuzzi, indicada ao Prêmio Shell RJ, assume papel central na narrativa. A luz atua como elemento dramatúrgico, dialogando diretamente com o tempo das cenas e potencializando o caráter onírico da encenação.

Teatro contemporâneo feito em Belo Horizonte

Para o Grupo Quatroloscinco, as indicações representam mais do que reconhecimento institucional. Elas reafirmam a potência do teatro contemporâneo produzido em Belo Horizonte e fortalecem a presença de grupos mineiros no cenário nacional. Ao mesmo tempo, o feito evidencia a importância de políticas de circulação e de fomento que permitam a continuidade de pesquisas artísticas de longo prazo.

Circulação nacional e novos caminhos em 2026

Após circular por quatro capitais brasileiras em 2025, “Velocidade” deve ampliar seu percurso em 2026. O grupo planeja levar o espetáculo para novas cidades, festivais e mostras pelo país, como parte da celebração dos 20 anos do Quatroloscinco. A expectativa é que a montagem siga encontrando diferentes públicos e reafirmando o teatro como espaço de encontro, reflexão e desaceleração.