Cultura

Pantera de Minas: conheça Ângela Diniz, protagonista de série lançada nesta quinta (13)

Minissérie da HBO Max revisita o assassinato da socialite mineira que inspirou o movimento “Quem ama, não mata”


Créditos da imagem: HBO Max/Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz na produção Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz na produção

Mariana Cardoso Carvalho

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13/11/25 às 14:03 - Atualizado em 13/11/25 às 14:09
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Quase meio século após ser assassinada em Búzios (RJ), Ângela Diniz volta a ocupar o centro das atenções. A socialite mineira, conhecida nos anos 1970 por sua beleza e comportamento livre, é o foco da minissérie “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, que estreia nesta quinta-feira (13) na HBO Max. A produção de seis episódios é dirigida por Andrucha Waddington e traz Marjorie Estiano no papel principal.


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Uma mulher à frente de seu tempo

Nascida em Curvelo, Minas Gerais, em 1944, Ângela cresceu em uma família tradicional e, ainda muito jovem, foi moldada para ser a dama ideal da alta sociedade mineira. Casou-se aos 17 anos com Milton Villas Boas, um homem 14 anos mais velho. O casamento terminou em desquite — na época, o divórcio ainda não era legalizado — e ela passou a ser vista como uma mulher “fora dos padrões”.

Livre das convenções, Ângela viveu intensamente, teve outros relacionamentos e se tornou figura constante nas colunas sociais do Rio e de Belo Horizonte. Essa independência, porém, incomodava, e seria mais tarde usada contra ela.

O crime na Praia dos Ossos

Em 30 de dezembro de 1976, Ângela foi morta a tiros dentro de sua casa em Búzios pelo então namorado, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, com quem mantinha um relacionamento marcado por episódios de violência. Após o crime, Doca fugiu e só foi julgado três anos depois.

Durante o primeiro julgamento, em 1979, a defesa de Doca, liderada pelo advogado e ex-ministro do STF Evandro Lins e Silva, recorreu à chamada “legítima defesa da honra”, tese que alegava que o réu agira movido por paixão e em defesa de sua reputação. O argumento transformou a vítima em ré: Ângela foi descrita como “mulher fatal”, “prostituta de luxo” e “ameaça à moral”. Doca foi condenado a apenas dois anos de prisão e saiu livre do tribunal no mesmo dia.

A reação social foi imediata. Movimentos feministas adotaram o lema “Quem ama, não mata” e acamparam diante do fórum de Cabo Frio (RJ), pedindo justiça. Em um novo julgamento, realizado em 1981, Doca foi finalmente condenado a 15 anos de prisão por homicídio qualificado.

De simbolo à redescoberta

Nos anos seguintes, a história de Ângela Diniz se tornou símbolo da luta contra a violência de gênero e da tentativa de silenciamento das mulheres. O caso inspirou o podcast “Praia dos Ossos” (Rádio Novelo, 2020), o filme “Ângela” (2023), estrelado por Ísis Valverde, e agora a minissérie da HBO Max.

A nova produção busca devolver humanidade à figura que foi reduzida a um estereótipo. O diretor Andrucha Waddington disse em entrevista coletiva que a história estava para ser contada há 49 anos.

A atriz Marjorie Estiano contou que o papel a transformou pessoalmente. “Ter feito a Ângela foi um processo psicanalítico. Uma personagem que se permite o prazer é algo muito importante na sociedade brasileira. A gente sente muita culpa de sentir prazer, de tirar férias, de se divertir, e a Ângela se autorizava a se dar prazer. A beleza da vida é viver”, afirmou.

Um retrato ainda urgente

Em 2023, o Supremo Tribunal Federal declarou a tese da “legítima defesa da honra” inconstitucional, encerrando oficialmente uma era de permissividade judicial. Mesmo assim, os números seguem alarmantes: apenas no primeiro semestre de 2025, o Mapa Nacional da Violência de Gênero registrou 718 feminicídios no país.