Os aromas, sabores e histórias que cercam o queijo artesanal mineiro ganharam um novo capítulo na Serra da Piedade, em Caeté, a cerca de 50 quilômetros de Belo Horizonte. Durante a primeira edição da Rota do Queijo de Minas no Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade, um espaço até então pouco conhecido do público foi transformado em uma experiência de degustação e valorização da cultura alimentar de Minas Gerais.
A iniciativa nasceu a partir da visão do produtor cultural e idealizador da Rota do Queijo de Minas, Jordane Macedo. Ao visitar uma antiga cavidade natural utilizada no passado pelo Frei Rosário, ele enxergou no local um potencial que ultrapassava a simples preservação histórica.
“Quando eu cheguei aqui pela primeira vez, vi aquele espaço e pensei: esse é o lugar de degustação. Tudo aconteceu de forma muito natural. Quando voltei, o ambiente já estava limpo e começamos a construir essa ideia”, conta.
O resultado é a criação da Cave Frei Rosário, ambiente dedicado à maturação e degustação de queijos artesanais mineiros em um cenário que reúne patrimônio histórico, fé e gastronomia. A proposta é que, em breve, os turistas vivenciem um roteiro dividido em três momentos: conhecer a história da Cave Frei Rosário e sua relação com o religioso que marcou a trajetória da Serra da Piedade; visitar uma das caves para acompanhar de perto o processo de maturação dos queijos; e, por fim, participar de uma experiência de degustação harmonizada, com produtos artesanais mineiros selecionados.
Crédito: Maria Clara Landim | Sou BH
Rota do Queijo de Minas promove imersão gastronômica na Serra da Piedade
A primeira edição da Rota do Queijo de Minas na Serra da Piedade transformou o Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade em um circuito de experiências gastronômicas e culturais voltadas aos queijos artesanais mineiros. O evento reuniu produtores de diferentes regiões do estado, degustações, apresentações culturais e ações de valorização da cadeia produtiva do queijo, consolidando o espaço como novo ponto da rota.
A proposta da iniciativa foi criar uma imersão para um grupo exclusivo, aproximando visitantes dos produtores e dos processos de produção e maturação. Nesse contexto, a experiência ganhou destaque com as harmonizações conduzidas pelo sommelier Ricardo Sá, que apresentou combinações entre queijos artesanais e bebidas selecionadas, explicando características, texturas e intensidades de sabor ao longo das degustações.
A realização do evento no santuário foi viabilizada com apoio institucional da administração do espaço e aprovação da organização religiosa responsável pela basílica, que autorizou a ocupação cultural e gastronômica da área. A iniciativa integra a expansão da Rota do Queijo de Minas, projeto que conecta produtores artesanais e experiências turísticas em diferentes territórios mineiros, com foco na valorização da tradição e da identidade alimentar do estado.
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De abrigo para cabras a espaço de experiências
A história do local remonta à década de 1980. Segundo Zacarias Profeta Pereira, colaborador histórico do Santuário e companheiro de Frei Rosário por quase cinco décadas, a estrutura foi construída para abrigar cabras leiteiras.
“Frei Rosário queria criar cabras para produzir queijo de leite de cabra. Mas elas não se adaptaram ao espaço e continuaram vivendo livres na natureza. Depois disso, o local ficou parado por muitos anos”, relembra.
Crédito: Maria Clara Landim / Sou BH
Zacarias chegou à Serra da Piedade em 1977 para auxiliar na construção da nova igreja do santuário. Desde então, acompanhou de perto as transformações promovidas por Frei Rosário, religioso que chegou ao local em 1949 e se tornou uma das figuras mais importantes da história da montanha.
“Quando ele chegou aqui não tinha água, luz nem estrada. Só existia uma trilha para chegar à igreja. Frei Rosário sempre pensava cem anos à frente. Tudo que ele fazia tinha um propósito”, afirma.
A filosofia do religioso permanece presente em diversos espaços do santuário. Segundo Zacarias, Frei Rosário costumava preservar as pedras originais das construções porque acreditava que elas lembravam uma verdade essencial: “Nós somos os invasores da natureza”.
Queijos maturados a mais de 1.700 metros de altitude
Além da beleza cênica, a Serra da Piedade oferece condições naturais que influenciam diretamente o processo de maturação dos queijos.
A cerca de 1.700 metros de altitude, a cave mantém temperatura média entre 12°C e 14°C, além de alta umidade relativa do ar. Essas características criam um ambiente ideal para o desenvolvimento de aromas e sabores únicos.
“O queijo maturado em caverna ganha um perfil diferente. Ele desenvolve um sabor mineral mais intenso e uma personalidade muito própria”, explica Jordane.
A prática remete à tradição europeia de maturação em cavernas naturais, mas ganha identidade genuinamente mineira ao receber queijos produzidos em diferentes regiões do estado.
A proposta é que os visitantes possam conhecer a história do local, observar o processo de afinação dos queijos e participar de degustações harmonizadas.
Crédito: Maria Clara Landim | Sou BH
Experiência pretende aproximar público dos produtores
Mais do que apresentar produtos, a Rota do Queijo busca conectar consumidores às histórias por trás de cada peça produzida.
A ideia é oferecer visitas guiadas, degustações comentadas e experiências exclusivas que valorizem não apenas os queijos, mas também outros produtos artesanais de Minas Gerais.
“Quero que as pessoas entendam o que é um Queijo Minas Artesanal, uma manteigueira de Minas ou um queijo maturado. Quando elas conhecem a história, passam a valorizar ainda mais quem produz”, afirma Jordane.
Atualmente, a Rota do Queijo de Minas reúne 54 produtores artesanais espalhados pelo estado. O movimento nasceu na Serra da Canastra, em 2022, e hoje conecta diferentes territórios produtores por meio do turismo gastronômico.
Crédito: Maria Clara Landim | Sou BH
Produtores encontram visibilidade e novas oportunidades
Entre os participantes da rota está o produtor Cristiano, de Diamantina. Sua trajetória ilustra como a iniciativa tem contribuído para ampliar mercados e fortalecer pequenos negócios rurais.
A tradição do queijo em sua família atravessa gerações. Os avós transportavam queijos, requeijões e outros alimentos para comercialização no Mercado Velho de Diamantina. Décadas depois, Cristiano decidiu retomar esse legado.
O início, porém, foi desafiador.
“Eu fazia queijo em um quartinho e enfrentava dificuldades para vender. Cheguei a pensar em desistir. Foi quando a Rota do Queijo apareceu e começou a divulgar nosso trabalho”, conta.
A partir daí vieram as participações em concursos nacionais. As primeiras medalhas de bronze deram lugar a premiações de prata e ouro em competições realizadas em Minas Gerais e em outros estados.
“Hoje continuamos crescendo, mas muito disso aconteceu porque as pessoas passaram a conhecer nossa história”, afirma.
Crédito: Maria Clara Landim | Sou BH
Mão de obra é principal desafio dos queijeiros
Apesar do reconhecimento crescente dos queijos artesanais mineiros, os produtores ainda enfrentam obstáculos.
Segundo Jordane Macedo, a principal dificuldade atualmente é encontrar mão de obra qualificada para trabalhar no campo.
“Muitos produtores já têm tecnologia, orientação técnica e apoio regulatório. Mas a falta de pessoas dispostas a trabalhar na atividade rural ainda é um grande desafio”, explica.
Por outro lado, a rede formada pelos integrantes da rota tem ajudado a superar dificuldades por meio da colaboração entre os próprios produtores.
“Às vezes alguém precisa de equipamentos, material ou estrutura. O grupo se mobiliza para ajudar. Existe um espírito muito forte de cooperação”, destaca.
A criação da Cave Frei Rosário amplia as possibilidades de visitação na Serra da Piedade, tradicional destino de peregrinação religiosa em Minas Gerais.
Além da Basílica Estadual das Romarias, considerada a menor basílica do mundo em extensão territorial e reconhecida pelo Vaticano, os visitantes encontram trilhas, mirantes e um importante patrimônio ambiental. Segundo informações apresentadas durante o evento, cerca de 20% da água que abastece Caeté tem origem na Serra da Piedade.
Para Jordane, a união entre turismo religioso e gastronomia cria uma experiência única.
“Imagine pessoas do mundo inteiro vindo conhecer o queijo maturado na Serra da Piedade, entender a história do Frei Rosário e experimentar os sabores de Minas. Isso tem um potencial enorme.”
Ao transformar uma antiga cavidade natural em espaço de convivência e degustação, a Rota do Queijo de Minas inaugura uma nova forma de contar histórias. Histórias que passam pela fé, pela preservação da memória e pelo trabalho de produtores que mantêm viva uma das tradições mais emblemáticas da cultura mineira.